A economia circular deixou de ser apenas uma tendência global para se tornar uma estratégia competitiva essencial na indústria brasileira – e a Bahia está no centro dessa transformação. Enquanto seis em cada dez indústrias nacionais já adotam práticas circulares, segundo pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o estado baiano apresenta cases expressivos que demonstram como o reaproveitamento de recursos pode gerar não apenas benefícios ambientais, mas também retorno econômico concreto.
A urgência do tema se intensifica em um ano marcado pela COP30, evento que colocou o Brasil sob os holofotes internacionais nas discussões sobre mudanças climáticas. Com uma matriz energética 99% renovável e um PIB industrial que registrou crescimento de 2,7% em 2024 – o melhor resultado em 11 anos – a Bahia tem potencial para liderar a implementação de modelos produtivos circulares no Nordeste.
O movimento global e nacional
No cenário internacional, a economia circular já movimenta bilhões de dólares e se consolida como resposta ao esgotamento do modelo linear de produção-consumo-descarte. A China aprovou legislação específica desde 2009, enquanto a União Europeia estabeleceu metas ambiciosas de circularidade. No Brasil, o governo federal aprovou, em maio de 2025, o Plano Nacional de Economia Circular (Planec), sinalizando o compromisso do país com a transição.
Os números brasileiros impressionam pelo potencial desperdiçado: o país gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas recicla apenas 8% deste volume. Mesmo assim, a produção nacional de plástico reciclado atingiu 1,012 milhão de toneladas em 2024, crescimento de 7,8% sobre 2023, conforme dados do Movimento Plástico Transforma, iniciativa do PICPlast, parceria entre a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e a Braskem.
Um estudo do Ministério do Meio Ambiente projeta que a economia circular pode criar até sete milhões de empregos no Brasil até 2030, demonstrando que sustentabilidade é também motor de desenvolvimento econômico. “A economia circular é um pilar estratégico para a competitividade do setor industrial e para o desenvolvimento sustentável do país”, afirma Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI.
Empresas baianas na vanguarda
Na Bahia, diversos setores já demonstram como a circularidade pode ser traduzida em vantagem competitiva. A Bracell, multinacional de celulose com operações em Camaçari, destaca-se pelo reaproveitamento de 85% dos resíduos industriais. Lodo, cinzas e resíduos calcíticos são transformados em corretivos de solo, insumos para hidrossemeadura e até telhas de fibrocimento.
O projeto Recicla Solar, da Solar Coca-Cola, representa outro exemplo emblemático. Desde 2020, a iniciativa já retirou mais de 20 mil toneladas de plástico do meio ambiente baiano, com parte do material retornando para a própria cadeia produtiva como novas embalagens.
A startup baiana Solos, fundada por duas mulheres em 2018, inovou ao criar um sistema de coleta seletiva com veículos elétricos operados por catadores formalmente contratados. Em parceria com a Prefeitura de Salvador, a iniciativa Roda – reciclagem na sua porta já reciclou quase meio milhão de quilos de materiais, gerando R$ 1 milhão de renda para catadores.
Também merece destaque a REEECicle, líder em economia circular no Nordeste, que coletou e destinou corretamente 900 toneladas de resíduos eletroeletrônicos em 2024, sendo 8,9 toneladas apenas na Bahia. A empresa doou 853 computadores remanufaturados e qualificou gratuitamente 876 pessoas nas áreas de tecnologia e sustentabilidade.
Lacunas e oportunidades inexploradas
Apesar dos avanços, a indústria baiana enfrenta desafios significativos para escalar as práticas circulares. A pesquisa da CNI revela que 43% das indústrias brasileiras não conseguem identificar quais fatores representam barreiras à circularidade. Entre as que conseguem, 25% apontam a falta de conscientização dos consumidores e 23% mencionam a ausência de estratégias para engajá-los.
A concentração geográfica da reciclagem representa outro gargalo. As regiões Sudeste e Sul lideram todas as etapas da cadeia, desde a geração do resíduo até a produção de resina reciclada. A Bahia, inserida no Nordeste, precisa fortalecer sua infraestrutura de processamento para não depender exclusivamente do envio de materiais para outras regiões – o que encarece o processo e reduz a competitividade.
O financiamento aparece como a principal barreira econômica: 22% das indústrias consultadas pela CNI apontam as taxas de juros elevadas como obstáculo. Além disso, a cumulatividade tributária sobre materiais reciclados pode torná-los mais caros que insumos virgens, criando um paradoxo que desestimula a circularidade.
A falta de mercados estruturados para absorver resíduos com padrão de qualidade também limita o crescimento do setor. Empresas interessadas em adotar matéria-prima secundária frequentemente esbarram na irregularidade da oferta e na ausência de certificações que garantam a qualidade dos materiais reciclados.
Barreiras sistêmicas
A infraestrutura de coleta seletiva permanece desigual. Segundo pesquisa do IBGE de 2024, 60,5% dos municípios brasileiros oferecem coleta seletiva, mas a cobertura varia drasticamente: no Sul, a taxa chega a 81,9%, enquanto no Norte não passa de 33,5%. O Nordeste ocupa posição intermediária, mas ainda distante do ideal para sustentar uma economia circular robusta.
A ausência de uma Política Nacional de Economia Circular consolidada, apesar da recente aprovação do Planec, gera insegurança jurídica. A regulamentação tributária atual, apontada por 59% das empresas do setor de biocombustíveis como obstáculo, precisa ser revista para incentivar – e não penalizar – a circularidade.
Por fim, a questão cultural não pode ser subestimada. Embora 75% da população brasileira declare separar o lixo em casa, grande parte desse material não chega efetivamente ao processo de reciclagem, reflexo da falta de educação ambiental sistemática e da desconexão entre intenção e prática.
Próximos passos
A Bahia tem condições privilegiadas para avançar na economia circular. A criação do Programa de Transição Energética (Protener) demonstra a visão estratégica do governo estadual em atrair investimentos sustentáveis. Os mais de R$ 3 bilhões em novos investimentos industriais anunciados recentemente, com foco em energia limpa e biocombustíveis, abrem portas para integração de cadeias circulares.
O secretário de Desenvolvimento Econômico, Angelo Almeida, reforça que “a Bahia é referência nacional em sustentabilidade e mantém o compromisso com uma indústria forte, verde e inclusiva”. Para transformar esse discurso em realidade sistêmica, será necessário:
• Ampliar parcerias público-privadas para estruturar centros regionais de triagem e processamento de resíduos
• Criar linhas de crédito específicas com juros subsidiados para projetos de economia circular
• Estabelecer compras públicas com preferência para produtos e serviços circulares
• Implementar programas de educação ambiental nas escolas e comunidades
• Desenvolver selos e certificações que valorizem empresas circulares
O que observar
Nos próximos meses, dois movimentos serão decisivos: a implementação do Planec – que pode trazer segurança jurídica e incentivos concretos – e a maturação dos projetos industriais anunciados na Bahia, que podem integrar circularidade desde a concepção.
O primeiro projeto brasileiro de créditos de carbono da reciclagem, lançado pela Green Mining, projeta movimentar R$2,8 bilhões por ano e pode criar um novo mercado para empresas baianas que adotarem práticas circulares. O Brasil regulamentou o mercado de carbono no final de 2024, e a implementação deve começar em quatro a cinco anos – janela crucial para quem deseja se posicionar.
A indústria baiana está diante de uma oportunidade histórica: liderar a economia circular no Nordeste não apenas por necessidade ambiental, mas por inteligência econômica. Os casos de sucesso já existem, a infraestrutura energética é favorável e o momento global é propício. Falta transformar ações pontuais em movimento sistêmico, garantindo que a circularidade deixe de ser exceção para se tornar regra no parque industrial baiano.
Sobre os dados
Este artigo utilizou informações de pesquisas recentes da CNI (fevereiro de 2025), dados do IBGE sobre produção industrial baiana (2024/2025), estudos do Ministério do Meio Ambiente e reportagens especializadas publicadas em veículos como BNews, Exame e portais institucionais de empresas e federações industriais.
















