
O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve atingir diretamente cerca de um terço das exportações baianas destinadas ao mercado norte-americano. Levantamento da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) mostra que aproximadamente US$273,1 milhões em mercadorias produzidas no estado passam a ser submetidos à tarifa adicional de 25%, o equivalente a 33,2% de tudo o que a Bahia exportou para os Estados Unidos em 2025.
A medida, anunciada pelo governo norte-americano e válida para produtos que ingressarem no país a partir de 22 de julho, amplia o alcance da versão preliminar divulgada em junho. Segundo a Fieb, a lista definitiva elevou em US$80,4 milhões o volume de exportações baianas afetadas, principalmente após a retirada da celulose solúvel da relação de produtos isentos.
O estudo revela que os segmentos mais expostos pertencem justamente a algumas das principais cadeias industriais do estado. A fabricação de papel e celulose concentra 38,1% do valor atingido pelas novas tarifas, seguida pela indústria de borracha e plásticos, especialmente pneus (28,7%), e pelo setor químico e petroquímico, responsável por 22,6% da pauta afetada.
Juntos, esses três segmentos representam quase 90% de todos os produtos baianos sujeitos ao novo adicional tarifário.
MERCADO ESTRATÉGICO
Embora os Estados Unidos tenham perdido importância relativa como destino das exportações baianas nas últimas duas décadas, o mercado americano continua estratégico para diversos setores industriais.
Em 2001, os EUA absorviam 35% das exportações da Bahia. Em 2025, essa participação caiu para 7,1% e, no primeiro semestre deste ano, recuou para 6,3%, colocando o país na quarta posição entre os principais compradores de produtos baianos.
Segundo a Fieb, o novo cenário tende a acelerar esse processo de perda de participação, sobretudo porque muitos dos produtos atingidos já vinham registrando queda nas vendas.
A celulose solúvel, principal item da pauta baiana para os Estados Unidos, teve as exportações reduzidas de US$120,6 milhões para US$96,2 milhões entre 2024 e 2025, retração de 20,3%. No mesmo período, as vendas de pneus caíram 27,4%, enquanto produtos petroquímicos como benzeno e butadieno registraram reduções de 72,9% e 65,1%, respectivamente.
No conjunto, as exportações dos produtos agora sujeitos à tarifa encolheram 35,8% entre 2024 e 2025.
NEGOCIAÇÃO
Para a Fieb, a permanência da sobretaxa poderá acelerar o redirecionamento de contratos para fornecedores de outros países.
Diante desse cenário, a entidade defende que o Governo Federal concentre as negociações na reinclusão da celulose solúvel, dos pneumáticos e dos produtos químicos do Polo de Camaçari na lista de isenções. Pede ainda a adoção célere de medidas de apoio às empresas afetadas e a seus fornecedores, com atenção às pequenas e médias indústrias inseridas nas cadeias atingidas.
A Federação também recomenda cautela caso o Brasil decida aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica. Segundo a avaliação técnica, uma retaliação indiscriminada pode elevar os custos da própria indústria brasileira, já que parte relevante das importações vindas dos Estados Unidos corresponde a máquinas, equipamentos, matérias-primas e insumos utilizados pelas cadeias produtivas nacionais.
Para a entidade, qualquer resposta deve ser seletiva, baseada em estudos de impacto e preservar insumos considerados estratégicos para a competitividade da indústria.
ANÁLISE
O estudo da Fieb deixa uma mensagem importante: o problema da Bahia não é apenas perder mercado nos Estados Unidos. É perder competitividade justamente em setores que concentram alto valor agregado e forte capacidade de geração de empregos.
Celulose, pneus e petroquímica formam parte da espinha dorsal da indústria exportadora baiana. Se esses segmentos enfrentarem uma desvantagem tarifária permanente, empresas americanas tendem a substituir fornecedores brasileiros por concorrentes de outros países, movimento que pode ser difícil de reverter mesmo se as tarifas forem retiradas posteriormente.
Outro aspecto relevante é que a participação dos Estados Unidos nas exportações baianas já vinha diminuindo há mais de duas décadas. O tarifaço não cria essa tendência, mas pode acelerar um processo de diversificação dos mercados externos e reforçar a busca por novos destinos para a produção industrial do estado.
Ao defender negociação antes de retaliação, a Fieb também sinaliza preocupação com um efeito colateral: uma resposta ampla do Brasil pode aumentar os custos da própria indústria nacional, que depende de equipamentos, componentes e insumos importados dos Estados Unidos.
Mais do que uma disputa comercial, o episódio passa a representar um teste para a capacidade de preservar a competitividade internacional da indústria baiana.
O QUE FICA DESSA HISTÓRIA
- O tarifaço vai além da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. Ele atinge diretamente cadeias industriais estratégicas para a economia baiana.
- A maior preocupação não é apenas a tarifa de 25%, mas a possibilidade de perda permanente de mercado para concorrentes internacionais.
- A negociação ganha peso estratégico. Para a Fieb, ampliar a lista de isenções pode ser mais eficaz para proteger a indústria do que uma retaliação ampla contra produtos americanos.
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