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Capa Veículos & Pneus

Enquanto a Anfavea pressiona, a BYD vende

BYD domina a Bahia no momento em que Brasília fecha a torneira

GERALDO BASTOS por GERALDO BASTOS
04/02/2026
em Veículos & Pneus
Tempo de Leitura: 5 minutos
A A
BYD

A BYD vendeu, em média, 15,2 veículos por dia em Salvador no mês de janeiro

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Terminou em 31 de janeiro o regime especial que concedia isenção de Imposto de Importação para a entrada de kits desmontados de veículos elétricos e híbridos no Brasil –  mecanismo criado pelo governo federal em agosto de 2025, após pleito da montadora chinesa BYD. O fim do benefício, resultado direto da pressão da indústria tradicional, ocorre justamente no momento em que a BYD consolida sua liderança no varejo automotivo em mercados estratégicos da Bahia e amplia sua presença nacional.

A coincidência escancara o dilema que hoje atravessa a política industrial brasileira: como equilibrar atração de investimentos, transição energética e competição justa em um setor que responde por cerca de 20% do PIB industrial do país.

A partir de 1º de fevereiro, voltaram a valer as alíquotas de 16% para kits CKD (completamente desmontados) e 18% para SKD (semidesmontados), conforme a tabela da Camex. A previsão oficial é que o imposto chegue a 35% em janeiro de 2027. O regime temporário, limitado a US$463 milhões em importações, não foi renovado –  e sequer entrou na pauta da Camex antes do vencimento.

Nos bastidores, apesar de articulações políticas ligadas à implantação da fábrica da BYD em Camaçari (BA), nenhum pedido formal de prorrogação foi apresentado. O recado do governo foi silencioso, mas claro: o ciclo do incentivo acabou.

Pressão da Anfavea  

O fim da isenção ocorre após meses de pressão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que colocou números no debate. Segundo estudo da entidade, a substituição da produção completa por montagem de kits importados pode eliminar até 69 mil empregos diretos e afetar outros 227 mil indiretos, além de provocar perdas de R$ 103 bilhões no setor de autopeças e queda relevante na arrecadação e nas exportações.

Embora o discurso seja institucional, o alvo do debate ganhou nome e endereço: a operação da BYD no Brasil, hoje estruturada majoritariamente no regime SKD em Camaçari. Para a Anfavea, o problema não é a eletrificação nem a entrada de novos players, mas o risco de o país trocar densidade industrial por uma lógica de montagem logística, com baixo conteúdo local.

“O Brasil precisa decidir se quer ser produtor ou apenas montador”, resume o manifesto publicado pela entidade.

Liderança da BYD

Enquanto o debate esquenta em Brasília, o consumidor dá sua resposta no varejo –  especialmente na Bahia.

Em janeiro, a BYD liderou as vendas em Salvador, com 321 veículos emplacados e 15,1% de participação de mercado, superando marcas tradicionais, como Fiat e Volkswagen. O desempenho mantém a montadora no pódio da capital desde novembro de 2025. Na prática, foram vendidos, em média, 15,2 veículos da marca por dia útil na cidade, mais do que Toyota e Honda somadas.

No interior, o avanço é ainda mais simbólico. Em Vitória da Conquista, a BYD começou 2026 na liderança absoluta, com 24,1% de market share –  praticamente um em cada quatro carros vendidos na região. No ranking estadual, a montadora ocupa a terceira posição, com cerca de 500 unidades comercializadas e 11,8% de participação, à frente de GM, Hyundai e Jeep.

No Brasil, a BYD fechou janeiro como a quinta marca que mais vendeu automóveis, com 9.801 veículos emplacados –  crescimento de quase 50% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No varejo, já aparece como a segunda colocada, e lidera com folga os segmentos de veículos elétricos e híbridos.

“Liderar as vendas de varejo em Salvador, superando marcas tradicionais e todas as demais montadoras novatas somadas, é uma demonstração clara de que o consumidor soteropolitano reconhece e confia na tecnologia, na eficiência e na inovação da BYD. Esse resultado tem um significado ainda maior para nós, porque a Bahia é a nossa casa, é o coração da BYD no Brasil. Produzir no estado e, ao mesmo tempo, conquistar a preferência do mercado local reforça que nossa estratégia de investir, gerar desenvolvimento e crescer de forma consistente nas principais regiões do país está no caminho certo”, afirma Alexandre Baldy, vice-presidente Sênior da BYD do Brasil e Head Comercial e Marketing da BYD Auto.

O paradoxo brasileiro

O contraste entre o fim do incentivo e o avanço da BYD revela um paradoxo incômodo. De um lado, a pressão legítima por isonomia regulatória, conteúdo local e preservação da cadeia industrial. De outro, um consumidor que responde rapidamente a preço, tecnologia, eficiência energética e disponibilidade de produto –  fatores nos quais a BYD construiu sua vantagem competitiva.

O debate, portanto, vai além da montadora chinesa. Ele toca no coração da estratégia industrial brasileira para a transição energética: eletrificar sem política industrial robusta gera dependência; fechar o mercado sem competitividade gera atraso.

O desafio do governo, a partir de agora, será condicionar incentivos a investimentos reais em engenharia, fornecedores locais e transferência de tecnologia,  sem ignorar a realidade do mercado, que já escolheu seus protagonistas.

O que está em jogo no caso BYD

O que era a isenção

  • Alíquota zero para importação de kits CKD e SKD

  • Válida por seis meses (até 31/01)

  • Limite de US$ 463 milhões

  • Criada após pedido da BYD para viabilizar a fase inicial da fábrica

Por que acabou

  • Forte pressão da Anfavea

  • Críticas ao baixo conteúdo local

  • Risco de perda de empregos e arrecadação

  • Nenhum pedido formal de renovação apresentado à Camex

O que diz a indústria tradicional

  • 69 mil empregos diretos ameaçados

  • 227 mil empregos indiretos em risco

  • R$ 103 bilhões de impacto negativo nas autopeças

  • Defesa de concorrência “sem distorções”

O que dizem os números do mercado

  • BYD líder em Salvador e Vitória da Conquista

  • 3ª colocada no ranking da Bahia

  • 5ª marca que mais vende no Brasil

  • Liderança absoluta em elétricos e híbridos


    Leia também: O turismo além da paisagem: Indústria News lança coluna ‘O Lado B dos Destinos’

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Tags: AnfaveaBahiaBYDCamaçariSalvadorveículos elétricosVitória da Conquista
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