A Bahia desponta como um dos estados mais estratégicos do país para a exploração de terras raras, segundo novo estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB). O levantamento, que integra o Informe de Recursos Minerais – Terras Raras no Estado da Bahia, mapeia uma diversidade de contextos geológicos favoráveis à ocorrência desses elementos críticos, cada vez mais disputados em um mundo pressionado pela transição energética e por tensões geopolíticas.
O estudo identifica potencial em áreas como o Complexo Jequié, o Complexo Lagoa Real, a Faixa Araçuaí e regiões associadas à borda leste do Cráton do São Francisco.
Em Lagoa Real, por exemplo, as terras raras surgem como subproduto de depósitos de urânio, ampliando as possibilidades de aproveitamento econômico. Já em áreas como Jequié e Araçuaí, os minerais estão associados a granitos alcalinos, pegmatitos e depósitos do tipo argila iônica, modelo considerado de baixo custo de lavra e altamente estratégico no cenário internacional.
Não por acaso, a Bahia concentra hoje cerca de 38% das áreas requeridas para pesquisa de terras raras no Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). Embora a maioria dos projetos ainda esteja em fase inicial, o número revela não apenas potencial geológico, mas também o crescente interesse do mercado em diversificar a oferta desses minerais, hoje fortemente concentrada na China.
O que são terras raras?
As terras raras são um grupo de 17 elementos praticamente insubstituíveis em cadeias industriais de alto valor agregado. Estão presentes em turbinas eólicas, motores de veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa, tecnologia médica e aplicações aeroespaciais. Elementos como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio são essenciais para ímãs permanentes de alto desempenho, peças-chave da economia de baixo carbono.
Qual o desafio da Bahia?
Para a Bahia, o desafio vai além de identificar jazidas. A oportunidade real está em transformar potencial geológico em estratégia industrial, evitando a simples exportação de minério bruto.
Isso passa por coordenação entre SGB, CBPM, universidades, setor privado e governos, atração de investimentos, desenvolvimento de rotas tecnológicas e alinhamento com políticas de transição energética.
Se bem conduzido, a Bahia pode deixar de ser apenas uma fronteira mineral e se tornar um hub nacional de terras raras, com impactos diretos em inovação, empregos qualificados e competitividade industrial.
Onde estão as terras raras na Bahia
- Complexo Jequié – monazita, chevkinita e outros minerais ricos em TR
- Complexo Lagoa Real – terras raras associadas a depósitos de urânio
- Faixa Araçuaí – granitos alcalinos e pegmatitos
- Borda leste do Cráton do São Francisco – ambientes favoráveis a argilas iônicas
- Sul da Bahia – depósitos secundários de monazita em areias litorâneas
Bahia em números
- 38% das áreas requeridas para terras raras no Brasil
- Mais de 900 áreas em requerimento de pesquisa
- Projetos distribuídos em cinco domínios tectônicos
- Maior concentração no sudeste da Bahia, ao longo do Complexo Jequié
Para que servem as terras raras
- Turbinas eólicas e geração de energia limpa
- Motores de veículos elétricos
- Eletrônicos avançados (celulares, LEDs, discos rígidos)
- Equipamentos médicos (ressonância magnética, tomografia)
- Defesa, indústria aeroespacial e tecnologias nucleares
A Unigel sangra
A crise da Unigel deixou de ser um problema corporativo para se tornar um sintoma evidente do adoecimento do setor petroquímico brasileiro – e a Bahia está no centro desse impacto. Com forte presença no estado e projetos estratégicos em curso, a empresa vive um processo de recuperação judicial que expõe limites financeiros, pressões globais e entraves competitivos que vão muito além de sua gestão.
Em recuperação judicial desde outubro de 2025, a Unigel tenta renegociar uma dívida superior a R$5 bilhões em meio a um cenário descrito pela própria companhia como de “baixa sem precedentes” na indústria química global. A combinação de sobreoferta internacional, queda nos preços dos químicos, custos elevados – especialmente do gás natural – e avanço de importados tornou a operação economicamente insustentável em diversas frentes.
Os efeitos são concretos.
A empresa devolveu à Petrobras as fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe, interrompeu operações históricas em São Paulo, como a planta de Cubatão, após quase 70 anos, e anunciou o fechamento da unidade de São José dos Campos. Na Bahia, o sinal de alerta é duplo: além da retração operacional, projetos considerados estratégicos estão travados.
No Polo de Camaçari, a Unigel enfrenta dificuldades para concluir a nova planta de ácido sulfúrico, cuja entrega estava prevista para este mês de janeiro. Também ficou pelo caminho o ambicioso projeto de hidrogênio verde, que colocaria a empresa como pioneira na produção industrial do insumo no Brasil. Dois investimentos que simbolizavam modernização, transição energética e diversificação industrial – agora paralisados.
O caso Unigel escancara um dilema maior: como sustentar a petroquímica nacional em um ambiente global hipercompetitivo, com custos locais elevados e política industrial fragmentada?
Na Bahia, onde o Polo de Camaçari é peça-chave da economia industrial, a resposta a essa pergunta deixou de ser teórica. A crise da Unigel sangra junto com o setor – e cobra, com urgência, coordenação, escala e estratégia.
Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
Leia também: Fratelli Vita: bebidas, cristais e o sabor que marcou uma geração














