Iarodi D. Bezerra*
“Ouvi uma piada uma vez: o homem vai ao médico e diz que está deprimido. Conta sobre a vida dura e cruel, e que se sente só em um mundo ameaçador, onde o futuro é vago e incerto.
O médico responde: – O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade — assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo”.
O homem se desfaz em lágrimas e diz: – Mas, doutor… eu sou o Pagliacci.
Boa piada. Todos riem. Rufam os tambores. Desce o pano.”
Esse diálogo, presente na obra Watchmen, de Alan Moore, ressurgiu em minha mente após escutar um paciente dizendo a seguinte frase durante uma sessão: “Ninguém sabe o que se passa na cabeça do palhaço.”
Fiquei dias pensando nela. Cheguei à conclusão de que era a mais pura verdade. As pinturas nos rostos têm escondido tão bem a carne viva daquelas pessoas que, de algum modo, ofertam ao mundo o pouco de luz que têm.
Você, caro leitor, provavelmente deve conhecer alguém assim, que carrega dentro de si uma alegria interminável, fazendo todos ao redor se sentirem melhores. Mas, às vezes, quando está só, você pensa nela e se pergunta: “Será que ela — que sorri tão alto — pode sofrer?”
A vida deveria ser isso: um movimento terapêutico, onde todos deveriam acolher-se mutuamente, munindo-se de afeto genuíno e permitindo-se, de vez em quando, sorrir — seja para dentro ou para fora. Tanto faz
Esse fenômeno pode ocorrer com ilustres desconhecidos ou artistas famosos. Não importa! A verdade é que, sobre essas pessoas, há um céu invisível feito por um firmamento de dilemas, tempestades íntimas que explodem dia e noite. As nuvens que se movem como criaturas das sombras, arrastando trovões que ninguém escuta.
Embora sejam “treinadas” para guardar as suas dores, uma hora o preço inegociável será pago. E ele vem de mansinho. O corpo saturado começa a sussurrar, através de pequenos “atos falhos”, os segredos que a alma cativa tenta esconder. Freud dirá sabiamente: “Quando a boca se cala, os dedos falarão.”
Confesso que não é incomum, enquanto atendo, que uma ou outra de minhas próprias nuvens se erga sobre mim. Então, o paciente mais sensível percebe — e ousa quebrar o ritual: “Hoje você não está bem, né?”
E, de repente, elas se deslocam. Sopra um vento do norte, que atravessa o cenário interno e afasta as nuvens como um gesto divino. A sessão, então, se torna um rio que finalmente encontra seu leito.
Afinal, o mundo é um território de encontros delicados, não? E é nesse momento que o terapeuta humano encontra o paciente humano, e suas humanidades se tocam como duas margens que, por um instante, se unem pela mesma ponte tênue da ética sensível.
A vida deveria ser isso: um movimento terapêutico, onde todos deveriam acolher-se mutuamente, munindo-se de afeto genuíno e permitindo-se, de vez em quando, sorrir — seja para dentro ou para fora. Tanto faz.
Porque, no fundo, todos somos um pouco Pagliacci — tentando arrancar um sorriso do mundo enquanto buscamos, secretamente, um olhar que nos enxergue.
- Iarodi D. Bezerra é Psicoterapeuta. Atua no atendimento infanto-juvenil e de adultos. Facilitador de grupos de psicoterapia.
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