Sete em cada dez domicílios de Brumadinho relataram algum tipo de adoecimento físico ou mental após a tragédia-crime ocorrida em janeiro de 2019. O dado é parte de um novo estudo publicado pela UFMG, no âmbito do Projeto Brumadinho UFMG, e revela um quadro persistente e estruturado de danos coletivos. Estresse, insônia, ansiedade, hipertensão e episódios depressivos aparecem como sintomas recorrentes. Além disso, 52% dos adultos passaram por tratamento psicológico ou psiquiátrico desde o rompimento da barragem da Vale, o que confirma o impacto duradouro sobre a saúde emocional de milhares de famílias. A pesquisa indica ainda piora de doenças crônicas e aumento da demanda por acompanhamento especializado.
O levantamento também registra que 76% dos domicílios enfrentam barreiras para acessar consultas, exames e tratamentos. A rede pública opera pressionada pelo aumento das demandas clínicas e pela mobilidade afetada após o rompimento. Nas casas, a insegurança sanitária reorganizou a rotina: 77% das famílias relatam medo constante de contaminação dos alimentos.
Para a presidente da Avabrum, Nayara Porto, os dados apenas formalizam uma realidade conhecida desde o primeiro ano pós-rompimento. “Recebemos a pesquisa com muita tristeza pois ela confirma que a população de Brumadinho continua sofrendo. Temos muitos relatos de pessoas que desenvolveram diabetes, artrose e artrite nesse período, além do crescimento do uso de ansiolíticos que também é visível”.
Os prejuízos não param por aí. O estudo também confirma a permanência de metais pesados em diferentes matrizes ambientais. Manganês, arsênio, chumbo, mercúrio e cádmio seguem presentes em áreas de uso cotidiano e fazem da água o principal vetor de risco. Segundo a pesquisa, 85% dos domicílios relatam impactos no uso dos corpos d’água e 75% afirmam que o fornecimento e a qualidade estão comprometidos.
Lama
A lama invisível, conceito que designa o estado de desconfiança generalizada sobre o consumo de bens produzidos em Brumadinho, também tornou-se elemento cotidiano. Para Josiane Melo, diretora da Avabrum, o tempo não devolveu segurança ao território. “É inadmissível conviver com insegurança hídrica, adoecimento e medo tantos anos depois. O estudo só comprova que a vida não voltou ao lugar”.
No campo econômico, o professor da UFMG Ricardo Machado Ruiz, que é um dos autores da pesquisa, destaca que uma perda bilionária está prevista. Ele explica que, sem o acordo firmado em 2021, Brumadinho teria perdido entre R$7 bilhões e R$9 bilhões de PIB no longo prazo. “Com a aplicação dos recursos, o prejuízo estimado cai para algo entre R$4,2 bilhões e R$5,4 bilhões, mas não desaparece”, destaca.
Ruiz também esclarece que a mineração funcionava como atividade central e o período pós-ruptura registrou uma economia baseada na reparação, que absorveu trabalhadores nas obras e reduziu efeitos imediatos, porém enfraqueceu pequenos negócios e atividades informais. Segundo o professor, a cidade não terá equilíbrio enquanto não diversificar as atividades do setor produtivo. “Se nada for feito para substituir aquela atividade mineradora, ainda restará essa perda bilionária dentro do município”, conclui.
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