
A Petrobras voltou a investir na Bahia em escala que não se via há pelo menos uma década. É o que afirmou Deyvid Bacelar, que por seis anos esteve à frente da Federação Única dos Petroleiros (FUP), durante entrevista exclusiva ao programa Webinar da Indústria. Segundo ele, a estatal vai investir nos próximos anos no estado, apenas na área de exploração e produção, recursos da ordem e US$3 bilhões no estado — o equivalente a mais de R$ 15 bilhões. O plano inclui a perfuração de 109 novos poços e à revitalização de quase 2 mil outros. Oito anos haviam se passado sem que a Petrobras perfurasse um único poço novo na Bahia.
O impacto já é sentido no mercado de trabalho. As unidades da Petrobras na Bahia empregam hoje 7.600 pessoas, e só o programa de perfuração e produção gerou 1.500 novos postos de trabalho nos últimos três anos. A produção da estatal no estado saltou de 12 mil para 18 mil barris de petróleo por dia. Somada à produção de empresas menores como PetroReconcavo e Brava, a Bahia chega a produzir entre 35 e 40 mil barris diários.
Se não bastasse, Deyvid Bacelar lembra ainda os investimentos robustos da estatal na reabertura da sede da Petrobras na Pituba, a retomada da produção da fábrica de fertilizantes nitrogenados (Fafen) em Camaçari e os investimentos na indústria naval. “Só na indústria naval, a construção de seis navios de apoio offshore no Estaleiro Enseada deve gerar 4.600 postos de trabalho”, disse Bacelar.

Refinaria Landulfo Alves
Mas é na questão da Refinaria Landulfo Alves (Rlam), privatizada em 2021 e hoje operada pela Acelen – empresa constituída pelo fundo árabe Mubadala -, que Bacelar concentra suas críticas mais duras. Para ele, todas as previsões feitas à época pela FUP se confirmaram: monopólio regional de combustíveis, desabastecimento pontual de GLP e óleo bunker – hoje, segundo ele, 100% exportado, sem venda no mercado local -, e preços elevados que penalizam tanto a indústria química e petroquímica quanto a população.
“Temos hoje, na Bahia, o segundo combustível mais caro do país”, afirmou o sindicalista. A refinaria baiana, acrescenta ele, opera entre 65% e 70% de sua capacidade, enquanto as unidades da Petrobras superam os 100%. O resultado é uma perda estimada em R$ 500 milhões por mês em arrecadação de ICMS para o estado da Bahia.
A recompra da Rlam pela Petrobras é, para Bacelar, uma questão de quando, não de se. O presidente Lula já declarou publicamente o interesse em três ocasiões distintas. Segundo o dirigente, há uma equipe técnica da Petrobras dentro da refinaria avaliando os ativos para uma nova valuation, um sinal concreto de avanço nas negociações.
Deyvid Bacelar conta que ofundo Mubadala teria chegado a pedir US$ 4 bilhões pelo conjunto de ativos, que inclui a refinaria, o Terminal Marítimo de Madre de Deus e três terminais terrestres, valor muito acima dos US$1,8 bilhão pago na compra. Bacelar questiona a justificativa: segundo ele, os investimentos realizados pela Acelen se limitaram a manutenção operacional e iluminação, sem ampliação real de capacidade. “Há unidades paradas há mais de dois anos dentro da refinari”, diz.
No horizonte regional, Bacelar também destacou o projeto Sergipe Águas Profundas, com investimentos estimados em US$ 70 bilhões e previsão de produção de 18 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia a partir de duas plataformas. O empreendimento quase zerará a necessidade brasileira de importação de gás natural e trará efeitos diretos sobre a economia baiana.
Novos voos
Quem faz esse balanço é um dos nomes que mais de perto acompanhou — e disputou — os rumos da Petrobras na última década. Natural de Feira de Santana, concursado da estatal e com quase 20 anos de movimento sindical, Bacelar deixa a coordenação-geral da FUP após seis anos para disputar uma vaga na Câmara Federal pelo PT da Bahia nas eleições de outubro.
Entre os momentos que mais marcaram sua trajetória, ele cita duas greves nacionais da categoria: a de 2015, que freou sinalizações de privatização ainda no governo Dilma, e a de 2020, que, segundo ele, foi decisiva para impedir a privatização da Petrobras durante o governo Bolsonaro. “Se não tivéssemos enfrentado o governo Bolsonaro em 2020, tenho certeza que a Petrobras teria sido privatizada”, afirmou. Cibele Vieira, dirigente da FUP e do Sindicato Unificado de São Paulo, assume interinamente o comando da federação, que reúne 14 sindicatos em todo o país.
A decisão de migrar para a política institucional, diz Bacelar, foi tomada coletivamente pelo campo sindical diante da baixa representatividade da classe trabalhadora no Congresso. Paralelamente, o metalúrgico Moisés Seleges, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, disputa uma vaga em São Paulo pela mesma via. Para Bacelar, o mandato que busca deve ser “popular, participativo, democrático e desenvolvimentista”. E a indústria, diz ele, seguirá no centro dessa agenda.
O WEBINAR DA INDÚSTRIA é um espaço de diálogo promovido pelo Indústria News para discutir os principais temas que impactam a indústria, a economia e os negócios. A cada edição, empresários, executivos, sindicalistas, pesquisadores, dirigentes e especialistas analisam desafios, oportunidades e tendências que ajudam a compreender os rumos do desenvolvimento industrial da Bahia e do Brasil.
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