A indústria calçadista da Bahia segue na contramão das dificuldades enfrentadas pelo setor no Brasil. Enquanto a produção nacional recuou 1,9% em 2025, pressionada pela desaceleração do consumo interno e pelas turbulências no mercado internacional, o estado ampliou sua participação na produção brasileira, aumentou o número de fábricas e registrou crescimento expressivo na geração de empregos. Os dados fazem parte da 11ª edição do Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, lançado pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) durante a BFSHOW, em São Paulo.
A publicação revela que a Bahia foi um dos estados que mais avançaram no setor ao longo do último ano. A participação baiana na produção nacional cresceu 0,5 ponto percentual em relação a 2024, desempenho que colocou o estado entre os destaques do país ao lado da Paraíba.
O avanço ocorre em um contexto desafiador para a indústria nacional. Em 2025, o Brasil produziu 847,5 milhões de pares de calçados, volume 1,9% inferior ao registrado no ano anterior. O setor foi impactado pela desaceleração da economia doméstica no segundo semestre, pelo aumento do endividamento das famílias e pela perda de competitividade nas exportações após a imposição de tarifas adicionais pelos Estados Unidos, principal destino internacional dos calçados brasileiros.
Apesar desse cenário, a Bahia reforçou sua posição como uma das principais bases produtivas do país.
Setor cresce e gera mais empregos
A indústria calçadista é atualmente o segmento que mais emprega dentro da indústria de transformação baiana, respondendo por mais de 15% dos postos de trabalho industriais do estado. Em 2025, o setor encerrou o ano com 42,4 mil empregos formais, superando os 39,6 mil registrados em 2024 e os 40,9 mil de 2023. O crescimento de 7,1% entre 2024 e 2025 colocou a Bahia entre os estados que mais expandiram o emprego calçadista no Brasil.
O desempenho ganha ainda mais relevância diante do cenário nacional. Segundo a Abicalçados, a indústria brasileira de calçados fechou 2025 com 271,4 mil empregos formais e registrou perda líquida de aproximadamente 3 mil postos de trabalho no período.
Outro indicador positivo veio da abertura de empresas. A Bahia registrou crescimento de 4,4% no número de estabelecimentos fabricantes de calçados, ficando entre os estados com melhor desempenho do país. Ao final de 2025, o estado contabilizava 94 fábricas ativas no segmento.

Dois polos sustentam expansão
O crescimento da indústria calçadista baiana tem como pilares os polos produtivos de Vitória da Conquista e Feira de Santana, responsáveis por grande parte da produção estadual.
O polo de Vitória da Conquista, localizado no sudoeste baiano, produziu 25,8 milhões de pares de calçados em 2025, crescimento de 7,3% em relação ao ano anterior, desempenho acima da média nacional. A região concentra praticamente metade da produção estadual, respondendo por 49,7% do total fabricado na Bahia, além de empregar 17,4 mil trabalhadores. Os produtos predominantes são calçados de material sintético (57%) e têxtil (38%).
Já o polo de Feira de Santana respondeu por 33,2% da produção estadual, com 17,2 milhões de pares produzidos em 2025. O município mantém forte relevância para a cadeia produtiva, gerando cerca de 16,5 mil empregos diretos. A pauta exportadora é diversificada entre calçados têxteis (40%), sintéticos — plástico e borracha — (39%) e de couro (20%).
Somados, os dois polos concentram mais de 80% da produção calçadista baiana e sustentam a posição do estado como um dos principais centros produtores do país.
Exportações enfrentam desafios
Embora a atividade produtiva e o emprego tenham avançado na Bahia, o cenário externo trouxe dificuldades para os exportadores. Vitória da Conquista exportou US$ 15,8 milhões em calçados em 2025, uma queda de 11,7% em relação ao ano anterior. Já Feira de Santana embarcou US$ 42,5 milhões, registrando retração de 24,8%.
A Argentina permaneceu como principal destino dos produtos baianos. Em Vitória da Conquista, o país absorveu 44% das exportações. Em Feira de Santana, a participação argentina alcançou 74% do valor exportado.
Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, o setor enfrentou uma verdadeira “tempestade perfeita” em 2025. Além da desaceleração do mercado doméstico, a indústria sofreu os efeitos do aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos e da redução do ritmo de compras da Argentina, os dois principais mercados internacionais para o calçado brasileiro.
Perspectivas para 2026
Apesar das incertezas, a expectativa da Abicalçados é de estabilidade com viés positivo para o setor em 2026. As projeções apontam para uma variação entre queda de 1,2% e crescimento de 1,4% na produção nacional, dependendo do comportamento da economia brasileira e do ambiente internacional.
Para a Bahia, a combinação de crescimento do emprego, ampliação do número de fábricas e fortalecimento dos polos de Vitória da Conquista e Feira de Santana reforça a importância estratégica da cadeia calçadista para a economia estadual.
Em um ambiente marcado por desafios globais e forte concorrência internacional, o desempenho baiano mostra que o estado continua consolidando sua posição como uma das principais referências da indústria calçadista brasileira.
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