
A fumaça dos charutos fazia parte da paisagem do Recôncavo Baiano. Em cidades como Maragogipe, Cachoeira e Cruz das Almas, a rotina era marcada pelo som das charuteiras conversando nos galpões, pelo movimento dos saveiros transportando fumo pelo Rio Paraguaçu e pelo cheiro forte das folhas secando nos armazéns. Durante décadas, a Suerdieck não foi apenas uma fábrica. Foi uma engrenagem econômica que ajudou a sustentar milhares de famílias e transformou o Recôncavo em referência internacional na produção de charutos artesanais.
A história começa com um alemão, uma mala e um faro para negócios. Em 1888, August Suerdieck desembarcou no Recôncavo como funcionário da firma germânica F. H. Ottens, enviado para fiscalizar o enfardamento de fumo em Cruz das Almas. Quatro anos depois, em 1892, comprou o armazém do próprio patrão e fundou sua empresa – a A. Suerdieck – como exportador e comprador de tabaco. A Bahia, à época, vivia um intenso intercâmbio comercial com a Alemanha, e o fumo baiano, especialmente o tipo Mata Fina cultivado no Recôncavo, era cobiçado pelas manufaturas europeias. August havia encontrado sua terra prometida.
A virada decisiva veio em 1899, com a chegada do irmão Ferdinand Suerdieck. Ao observar os trabalhadores dos armazéns confeccionando charutos para consumo próprio nos meses de entressafra – quando a compra e o enfardamento paravam -, Ferdinand enxergou uma oportunidade que os concorrentes haviam ignorado. Nascia ali a ideia de transformar o tabaco bruto em charuto acabado.
Em 1905, no Armazém Caijá, em Maragojipe, com apenas cinco operários, a Suerdieck Fábrica de Charutos Especiaes deu seus primeiros tragos. A escolha de Maragojipe não foi por acaso: a cidade reunia duas vantagens estratégicas inigualáveis: uma mão de obra feminina especializada na arte da charutaria e uma localização privilegiada às margens do Paraguaçu, que permitia o escoamento da produção pelos saveiros até Salvador e, dali, para o mundo.

Crescimento vertiginoso
O crescimento foi vertiginoso. Em 1907, a fábrica já empregava 13 operários e ganhava um gerente técnico vindo da Europa, o alemão Carl Gerles. Em 1910, eram 200 funcionários, a maioria mulheres. Em 1913, a primeira grande ampliação. Em 1921, um novo e moderno prédio foi inaugurado, conectado ao original por um passadiço em concreto armado que se tornaria uma das marcas visuais mais icônicas da paisagem de Maragojipe.

Em 1935, ao completar 30 anos de manufatura de charutos, a empresa inaugurou a segunda fábrica, em Cruz das Almas – cidade da qual August havia partido como simples fiscal décadas antes. No ano seguinte, abriu a terceira unidade, em Cachoeira. A Suerdieck havia se tornado um império com três fábricas no Recôncavo. Segundo o pesquisador Ubaldo Marques Porto Filho, autor do livro “Suerdieck, Epopeia do Gigante”, a empresa chegou a ter 16 empresas no total – 12 no Brasil e quatro na Europa, sendo três na Alemanha e uma na Suíça.
O auge veio em 1955, ano do cinquentenário dos charutos. Naquele momento, a unidade de Maragojipe era a maior fábrica de charutos da América Latina, e a Suerdieck, somando suas três plantas, ostentava o título de maior produtora mundial de charutos totalmente artesanais. No ano seguinte, em 1956, sob a gestão de Geraldo Meyer Suerdieck – neto da família fundadora – a empresa bateu um recorde histórico: produziu e vendeu 180 milhões de charutos em um único ano.

Um feito que, segundo o próprio Ubaldo Porto Filho, nunca havia sido alcançado por nenhum fabricante no mundo. O quadro fixo de funcionários chegou a 4.500 pessoas. Somados os trabalhadores temporários dos armazéns espalhados por 13 municípios produtores de tabaco na Bahia, o número superava os 7.500 postos de trabalho.
A Suerdieck era, à época, a maior empregadora de mão de obra e a maior pagadora de impostos do estado, segundo registros históricos do grupo. Tinha até uma marca exclusiva para o presidente Getúlio Vargas – os “Getúlios” – produzida especialmente para o chefe de governo após sua visita às fábricas do Recôncavo, em 1933, conforme relata o site Charutos Baianos. A empresa chegou a comercializar 464 marcas diferentes ao longo de 70 anos de produção, atendendo a 70% do mercado nacional e exportando cerca de 90% de sua produção para os Estados Unidos, Alemanha e Suíça, segundo o Memorial de Cruz das Almas.
Concorrência
Mas o cheiro de charuto que perfumou o Recôncavo por décadas começou a mudar de tom no segundo pós-guerra. O cigarro industrializado, mais barato, mais prático e amplamente impulsionado pelo marketing americano, invadiu mercados que antes eram dos charutos. A Suerdieck, cuja produção era mais voltada para volume do que para o segmento premium, foi particularmente vulnerável a essa transformação.

“Em 1977, quando chegamos, a Suerdieck era a maior fabricante do mundo de charutos feitos à mão. Mas não eram charutos premium”, avaliou Félix Menendez, da rival Menendez & Amerino, em reportagem da National Geographic Portugal. A comparação era dura, mas precisa. A fábrica alemã-baiana havia ficado grande demais para um mercado que exigia cada vez mais sofisticação, e pequena demais para competir em escala industrial com os cigarros.
Os anos 1990 foram o começo do fim. A falta de capital de giro para financiar a lavoura de fumo travou a cadeia produtiva, conforme noticiou o jornal Diário do Grande ABC, em março de 2000. Em 1992, a histórica fábrica de Maragojipe – a matriz, a alma do negócio – fechou as portas, encerrando quase 90 anos de produção contínua naquela cidade.
A tentativa de salvar o grupo concentrando operações em Cruz das Almas não foi suficiente. Em 1995, uma nova crise: um surto de fungos devastou a safra de tabaco. No último ato, a empresa apostou em mudas importadas da ilha de Sumatra para recuperar a lavoura. Uma praga dizimou o plantio. Era mais do que a empresa podia suportar.
Em 30 de outubro de 1999, a produção foi interrompida. No dia seguinte, os funcionários foram mandados para férias coletivas. Quando voltaram, encontraram as portas fechadas. Em março de 2000, os últimos 100 funcionários foram dispensados e a fábrica de Cruz das Almas encerrou definitivamente as atividades, acumulando um passivo bancário de cerca de R$ 20 milhões. A empresa que havia durado 107 anos e cruzado o mundo com o nome da Bahia gravado em cada anilha havia chegado ao fim.
O legado
O legado permanece nas pedras e na memória. Em Maragogipe, os dois prédios conectados pelo famoso passadiço hoje abrigam usos precários – parte foi invadida e subdividida para fins residenciais e comerciais, conforme registrado pelo projeto Patrimônio Arquitetônico Industrial da Ufba. Em Cruz das Almas, o edifício que abrigou a última fábrica também perdeu a função industrial.
A história da Suerdieck tornou-se, com o tempo, tema de pesquisa acadêmica. Priscilla da Silva Eloy dedicou sua dissertação de mestrado ao perfil étnico-sociocultural dos trabalhadores da fábrica. A Universidade Federal do Recôncavo Baiano produziu documentários sobre as charuteiras. O escritor Ubaldo Marques Porto Filho a eternizou em livro.
Mas talvez o maior epitáfio seja o de Valdir dos Santos, ex-funcionário, ao falar da época em que a fábrica vivia: “A população havia crescido bastante neste período, e a Suerdieck controlava a grande parte econômica da cidade.” Uma frase simples que diz tudo sobre o que se perdeu quando a fumaça do último charuto se dissipou no Recôncavo.
Fontes: Patrimônio Arquitetônico Industrial (Ufba); Blog Don Emmanuel; Zevaldo Sousa / História da Suerdieck em Maragogipe; Memorial de Cruz das Almas; DGABC (16/03/2000); Ubaldo Marques Porto Filho, “Suerdieck, Epopeia do Gigante”; National Geographic Portugal; site Charutos Baianos; Tabaqueiras Brasileiras; Reverso Online (UFRB); UECE – Anais do 2º Encontro Internacional.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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