A Infra S.A. iniciou uma nova fase das obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol II) ao formalizar o começo dos trabalhos no lote 05FC, um dos trechos mais complexos do projeto. Com investimento de R$467,9 milhões e prazo de execução de 43 meses, o contrato marca uma tentativa concreta de tirar do papel um corredor logístico considerado estratégico para o país e que há mais de uma década enfrenta entraves técnicos, ambientais e institucionais.
O trecho, com 35,75 quilômetros entre os municípios de Guanambi e Caetité, concentra desafios relevantes de engenharia. Estão previstas a construção e conclusão de sete viadutos e outras obras de arte especiais em uma região de relevo acidentado, além da adoção de soluções voltadas à mitigação de impactos ambientais e ao monitoramento geotécnico em áreas sensíveis.
Mais do que o avanço físico, o novo contrato representa uma tentativa de corrigir falhas estruturais que historicamente travaram o andamento da ferrovia. Um dos principais impasses – a proximidade do traçado com a barragem de Ceraíma e comunidades locais – foi resolvido com o redesenho do percurso, aliado a um modelo de contratação que antecipa riscos e reforça a governança do projeto.
Para o diretor de Empreendimentos da Infra S.A., André Ludolfo, o início efetivo das obras sinaliza uma mudança na condução da ferrovia. “Estamos transformando um dos trechos mais críticos da ferrovia em um exemplo de engenharia aplicada e capacidade de execução. Mais do que iniciar uma obra, estamos destravando um corredor logístico estratégico, essencial para integrar regiões produtoras ao litoral e ampliar a competitividade do Brasil no mercado global”, afirmou.
Corredor Logístico
Com 481 quilômetros de extensão, a Fiol II é peça-chave na estruturação de um corredor logístico que conecta o interior da Bahia ao Porto de Ilhéus e, futuramente, à Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), em Mara Rosa. A expectativa é que o sistema alcance capacidade de até 50 milhões de toneladas por ano, voltado principalmente ao escoamento de grãos e minérios.
Na prática, o projeto tenta reposicionar a Bahia como eixo relevante na logística nacional, ao reduzir custos de transporte e ampliar a competitividade das exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, se insere em uma estratégia mais ampla de integração continental: o corredor Fico-Fiol está associado à proposta da ferrovia bioceânica, que pretende ligar o Atlântico ao Pacífico, conectando o Porto de Ilhéus ao porto de Chancay, no Peru.
Internamente, a Infra S.A. aposta em um modelo de execução que busca evitar os erros do passado. Segundo o superintendente de Desenvolvimento de Empreendimentos, Tharlles José Soares Fernandes, o projeto inaugura um novo padrão de planejamento.
“Estamos elevando o padrão ao antecipar passivos críticos e estruturar uma governança que prioriza a mitigação de riscos antes da ordem de serviço. Com traçado validado, licenciamento pactuado e etapas bem definidas, reduzimos incertezas e criamos condições para que a obra avance sem as interrupções do passado”, disse.
O contrato também estabelece diretrizes mais rígidas para execução. Entre elas, a exigência de compatibilização completa dos projetos antes do início das obras, controle mensal de desempenho e alinhamento entre licenciamento ambiental e liberação de frentes de trabalho. O modelo segue a lógica da contratação integrada, que transfere maior responsabilidade à construtora, mas mantém parâmetros técnicos definidos pela estatal.
Execução
A execução ficará a cargo do Consórcio A. Gaspar/Vipetro, responsável por um trecho que inclui estruturas de grande porte, com viadutos que somam mais de 3 quilômetros de extensão e pilares que chegam a 60 metros de altura. Segundo o gestor de contratos Fabrício Gaspar, o desafio vai além da engenharia. “Nosso compromisso é executar uma obra tecnicamente desafiadora com responsabilidade social. Vamos priorizar a contratação de trabalhadores da região e atuar em diálogo permanente com as prefeituras, respeitando os planos diretores e minimizando impactos nas comunidades”, afirmou.
A supervisão será realizada pelo consórcio Pini-Encibra, que já mobilizou equipes para acompanhamento integral das obras, incluindo análise de projetos, controle de qualidade e monitoramento físico-financeiro. Para Carlos Marola, gestor do contrato de supervisão, a fiscalização será determinante para garantir a integridade do empreendimento. “Nossa missão é assegurar que cada etapa seja executada conforme os padrões técnicos, com controle rigoroso de qualidade e aderência aos prazos”, destacou.
Cautela
Apesar do novo avanço, o histórico da Fiol impõe cautela. O projeto acumula atrasos, revisões de traçado e dificuldades de licenciamento, o que levanta dúvidas sobre prazos e execução. O novo modelo, mais estruturado, tenta responder a essas fragilidades.
Se funcionar, pode virar referência para obras públicas de grande porte no país. Se repetir os erros do passado, reforça um padrão conhecido: projetos estratégicos que avançam no discurso, mas patinam na entrega.
Por ora, o que se vê é uma nova tentativa mais organizada, mais cara e sob maior pressão para dar certo.
E a Fiol I?
A Fiol I é um trecho ferroviário de 537 km ligando Ilhéus a Caetité, na Bahia, fundamental para o escoamento de minério de ferro e grãos. Concedida à Bamin em 2021, a obra teve contratos suspensos em março de 2025 com cerca de 75-80% de execução, buscando agora novos investidores.
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