
A semana industrial (15/02/2026 a 21/02/2026) foi marcada por um movimento estratégico da portuguesa Mota-Engil na infraestrutura baiana, pela aposta da Unipar em energia solar e por um alerta estrutural: a informalidade segue inflando os números do emprego na Bahia. Ao mesmo tempo, o Sudoeste desponta como nova fronteira mineral, com potencial para além da pecuária tradicional.
INDICADOR EM DESTAQUE
Informalidade dispara na Bahia
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo IBGE na sexta-feira (20), revelou que a Bahia encerrou 2025 com taxa de informalidade de 52,8%, a terceira mais alta do país, ficando atrás apenas de Maranhão (58,7%) e Pará (58,5%).
O que significa? O dado expõe a contradição da recuperação econômica baiana: enquanto o desemprego caiu para 8,7% – a menor taxa desde 2012 – mais da metade dos trabalhadores atua sem carteira assinada, sem cobertura previdenciária, 13º salário, seguro-desemprego ou férias. Mais grave: o rendimento médio (R$ 2.284) dos trabalhadores baianos é o segundo menor do Brasil. A combinação de alta informalidade com baixa remuneração indica que o crescimento do emprego acontece predominantemente em atividades de baixa produtividade – comércio ambulante, serviços domésticos, aplicativos de entrega.
Para a indústria baiana, o cenário é preocupante: representa escassez de mão de obra qualificada, dificuldade em contratar formalmente e competição desigual com atividades informais que não pagam impostos. É um “crescimento frágil”, onde números melhoraram, mas a qualidade do emprego não acompanhou na mesma proporção.
52,8%
É a porcentagem de trabalhadores baianos que atuam sem registro formal, segundo o IBGE. O índice é o maior desafio para a sustentabilidade do crescimento industrial a longo prazo no estado.
PRINCIPAIS NOTÍCIAS
Mota-Engil mira projetos no estado
O grupo português Mota-Engil está em negociações avançadas com o governo federal para assumir três ativos estratégicos na Bahia: o trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol 1), o Porto Sul em Ilhéus, e a mina de minério de ferro em Caetité. A empresa já está em fase de due diligence e, segundo fontes, a probabilidade de fechamento é elevada.
Por que isso importa? A operação pode destravar projetos paralisados. A Fiol 1, com 537 km ligando Caetité a Ilhéus, está 75% concluída mas totalmente parada desde março de 2025, quando a Bamin – atual detentora controlada pelo grupo cazaque ERG – interrompeu as obras por dificuldades financeiras. O Porto Sul, com investimento previsto de R$8,3 bilhões, acumula atraso de 20 meses, apesar de licenças ambientais emitidas.
Para a Bahia, representa chance de consolidar corredor logístico estratégico para escoamento de minério e grãos do Mato Grosso ao litoral. A Mota-Engil tem como sócio relevante a estatal chinesa CCCC (32,4%), que deverá liderar o financiamento.
Se confirmada, a transação coloca a empresa em posição privilegiada para disputar o leilão da Fico-Fiol (mais 1.650 km de ferrovia ligando Bahia ao Mato Grosso), previsto para agosto com investimento total de R$41,8 bilhões – a maior obra da carteira de leilões ferroviários do governo. É também sinal da atração de capital estrangeiro (Portugal + China) para infraestrutura baiana, mas exige governança robusta para garantir conclusão e benefícios locais.
Sudoeste pode virar potência mineral
O Sudoeste baiano, tradicionalmente ligado à pecuária, começa a atrair atenção pelo potencial mineral, especialmente lítio – insumo estratégico para baterias e transição energética.
Por que isso importa? O Brasil detém a quinta maior reserva mundial de lítio e pode saltar de 2% para 25% da produção global nos próximos anos, segundo a consultoria A&M Infra. Minas Gerais concentra as maiores reservas (Vale do Jequitinhonha), mas a Bahia tem potencial expressivo em Caetité e entorno — exatamente onde a infraestrutura da Fiol e Porto Sul facilitariam escoamento. O lítio é fundamental para baterias de veículos elétricos e armazenamento de energia, mercado em franca expansão.
Para o Sudoeste baiano, representa oportunidade de diversificação econômica: a região, historicamente dependente de café e pecuária, poderia agregar mineração de alto valor. Porém, exige planejamento: licenciamento ambiental rigoroso, investimento em infraestrutura (energia, água, estradas), capacitação de mão de obra e governança para evitar impactos socioambientais negativos. A proximidade com a mina Pedra de Ferro (Bamin) e potencial da Fiol criam sinergia logística estratégica, desde que os projetos saiam do papel.
Unipar aposta em energia solar
A Unipar, gigante do setor químico, anunciou na segunda-feira (18) a formalização de joint venture com a Casa dos Ventos para construção de duas usinas solares fotovoltaicas em Paraíso das Águas (MS), cada uma com 80 MW de capacidade. O contrato de 15 anos garante 33 MW médios à Unipar a partir de 2028, além do direito de adquirir 9,8% do capital da Ventos de São Norberto Energias Renováveis. A empresa já opera empreendimentos eólicos no Rio Grande do Norte e na Bahia, além de participação em complexo solar em Minas Gerais.
Por que isso importa? Energia representa cerca de 50% dos custos de produção de cloro e soda da Unipar. Com este novo contrato, a companhia passa a destinar aproximadamente 192 MW médios às suas fábricas no Brasil, operando integralmente com energia renovável. Para a indústria química baiana – onde a Unipar tem presença forte -, o movimento sinaliza estratégia setorial de redução de custos via autoprodução de energia limpa. A iniciativa reforça tendência no Nordeste: empresas intensivas em energia (químicas, mineração, siderurgia) buscam contratos de longo prazo em solar e eólica para fugir da volatilidade tarifária e ganhar competitividade.
A Bahia já tem empreendimentos eólicos da Unipar em operação e, dado o potencial solar da Chapada Diamantina e Oeste, pode atrair novos investimentos do setor. É também resposta à crise do polo petroquímico: enquanto Braskem e outros enfrentam custos elevados de insumos, a energia renovável oferece alternativa para viabilizar operações no estado.
AGENDA DA SEMANA
Segunda-feira (23/2)
- O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) divulga os resultados 2019-2025 e as metas até 2029 do programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover). São cinco frentes de atuação para aumentar a produtividade e reduzir as emissões de carbono da cadeia automotiva: formação profissional; consultorias; pesquisa e desenvolvimento (P&D); apoio à criação de centros de competência; e parcerias internacionais para intercâmbio de pesquisadores para centros de excelência no exterior. Os recursos são não reembolsáveis.
Terça-feira (24/2)
- A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulga, na terça-feira (24), às 10h, a Sondagem Industrial. O levantamento mostra a percepção dos empresários sobre o desempenho das indústrias extrativa e de transformação em janeiro, bem como a expectativa dos industriais para os próximos meses.
- Ainda na terça, a CNI publica a Agenda Jurídica da Indústria 2026, que reúne todos os processos de autoria da CNI que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). O documento também traz ações em que a CNI é amicus curiae (parte interessada) e outros processos em que a instituição atua como observadora por envolver temas de interesse da indústria.
Quarta-feira (25/2)
- Na quarta-feira (25), o Movimento Empresarial pela Saúde (MES) lança o Grupo de Trabalho (GT) da Cadeia de Valor da Saúde da Indústria, na sede da CNI, em Brasília. O novo GT vai discutir estratégias para o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), voltado à produção, inovação e desenvolvimento do setor. O MES é uma iniciativa do Serviço Social da Indústria (Sesi) e da CNI.
Quinta-feira (26/2)
- O Instituto Euvaldo Lodi (IEL) divulga, às 8h, novas oportunidades de estágio em empresas e indústrias de todo o país. As vagas são destinadas a estudantes dos ensinos médio, técnico e superior. As oportunidades abrangem diversas áreas e oferecem bolsa-auxílio e benefícios. Para participar, é necessário estar regularmente matriculado e atender aos requisitos de cada vaga.
- Também na quinta, às 10h, a CNI divulga a Sondagem Indústria da Construção de janeiro. A pesquisa monitora o desempenho da atividade, a confiança dos empresários e a evolução futura do setor. O levantamento é feito em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Sexta-feira (27/2)
- O IBGE divulga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de fevereiro. Há dados para a RMS
- Também serão divulgados os dados do Rendimento Domiciliar per Capita de 2025. Há dados para a Bahia.
- A CNI divulga o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) Setorial de fevereiro. A pesquisa mede o nível de confiança dos empresários de cada um dos 29 setores da indústria, de acordo com o porte das empresas e a localização geográfica.
- A coluna Indústria em Foco é publicada às segundas-feiras. Análise elaborada pela equipe Indústria News
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