
O mercado de veículos novos começou 2026 em terreno positivo na Bahia. Em janeiro, foram emplacadas 20.057 unidades, alta de 2,74% em relação ao mesmo mês do ano passado – e isso mesmo com um dia útil a menos no calendário.
Na comparação com dezembro de 2025, a queda de 21,43% era esperada. Janeiro costuma ser assim: férias, bolso mais apertado e atividade econômica andando em marcha lenta.
Mas os números divulgados pela Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) escondem um detalhe que merece atenção: o mercado baiano segue de pé graças às motos.
Foram 12.222 motocicletas emplacadas no mês, ou seja, quase 61% das vendas de veículos em janeiro, e um crescimento expressivo de 11,84% em relação a janeiro de 2024. Sem elas, o desempenho geral teria sido bem mais frágil ou até negativo.
Todos os outros segmentos recuaram forte: ônibus (-73,53%), máquinas agrícolas (-33,33%), caminhões (-28%) e automóveis (-6,42%).
Na prática, o que sustenta o setor não é um ciclo virtuoso de renda ou crédito mais barato – é a popularização da moto como solução de sobrevivência econômica.
Juros altos, financiamento caro e renda pressionada empurram o consumidor para o veículo mais acessível, usado tanto para deslocamento quanto para trabalho, especialmente em serviços de entrega e na informalidade.
O problema é que esse crescimento, que já ocorre há vários meses, vem com uma conta paralela. Mais motos nas ruas significam trânsito mais tenso, aumento de acidentes, condutores muitas vezes despreparados e uma pressão crescente sobre o sistema de saúde, que já convive com a sobrecarga de atendimentos envolvendo motociclistas.
O presidente da Fenabrave, Arcelio Junior, vê resiliência no resultado e destaca a manutenção da demanda mesmo com crédito restrito. O dado é correto.
Mas a pergunta que fica é outra: o que esse crescimento realmente revela sobre a economia baiana?
Quando o mercado de veículos sobrevive apoiado fortemente nas motos – impulsionadas pelo trabalho informal, pelo crédito caro e pela falta de alternativas – estamos falando de avanço econômico ou de adaptação forçada?
Afinal, até que ponto esse “bom desempenho” não está sendo pago com mais acidentes, hospitais sobrecarregados e um trânsito cada vez mais caótico?
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Arrecada como capital, vive como periferia
O novo estudo do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação) sobre os 100 municípios brasileiros com maior arrecadação de tributos escancara um Brasil concentrado – e um Nordeste ainda à margem do jogo grande.
São Paulo sozinho arrecadou, em 2024, R$581,1 bilhões, o equivalente a quase 30% de tudo o que foi levantado pelos 100 maiores municípios do país. É mais do que um número: é a tradução fiscal da centralização econômica brasileira.
Do outro lado do mapa, o Nordeste aparece com apenas 12 municípios no ranking. A Bahia tem três: Salvador (14º), Camaçari (46º) e Feira de Santana (97º). Pouco, muito pouco.
O dado que chama atenção é Salvador atrás de Fortaleza.
A capital baiana arrecadou pouco mais de R$20 bilhões, enquanto Fortaleza passou dos R$23 bilhões. Não é detalhe estatístico. É sinal de modelos distintos.
Fortaleza conseguiu ampliar sua base econômica, diversificar serviços e gerar maior densidade produtiva. Salvador segue dependente de consumo, turismo e serviços tradicionais, com baixa musculatura industrial e pouco efeito multiplicador.
Quando o ranking muda para arrecadação per capita (o total arrecadado dividido pelo número de habitantes,), o contraste fica ainda mais incômodo.
Apenas um município baiano aparece entre os 100: São Francisco do Conde, com impressionantes R$43,6 mil por habitante – encostado em São Paulo e Rio de Janeiro.
Mas aí entra a pergunta que o ranking não responde: e daí?
A riqueza per capita de São Francisco do Conde vem do petróleo. O município arrecada muito, mas convive com pobreza persistente, serviços públicos frágeis e baixa diversificação econômica.
O dinheiro entra, mas não se transforma, necessariamente, em cidade melhor, emprego de qualidade ou desenvolvimento sustentável.
O estudo do IBPT deixa claro que arrecadar é importante. Mas não basta.
O desafio real – especialmente para a Bahia – não é subir no ranking de tributos, e sim transformar receita em política pública eficiente, investimento produtivo e desenvolvimento que apareça fora da planilha.
Porque arrecadação alta sem projeto vira só estatística bonita. E cidade nenhuma se sustenta apenas com números.
Os municípios com maior arrecadação de tributos no Nordeste em 2024
1º Fortaleza (CE) – R$ 23.245.224.709,32
2º Salvador (BA) – R$ 20.089.187.134,13
3º Recife (PE) – R$ 19.325.327.218,91
4º São Luís (MA) – R$ 9.577.659.668,42
5º Maceió (AL) – R$ 7.214.459.397,55
R$ 933,7 milhões
Foi o valor investido pelo Ministério de Minas e Energia no programa Luz para Todos, na Bahia, no ano passado. Foram feitas 29.562 novas ligações em todo o estado. Apenas o Pará superou o desempenho baiano: 40.150 ligações, com R$ 1,13 bilhão investidos.
Do berço à margem
A Bahia, que entrou para a história como o berço da indústria do petróleo no Brasil, hoje ocupa um espaço cada vez mais periférico no mapa da produção nacional. Em 2025, o estado respondeu por apenas 0,55% da produção brasileira de petróleo, abaixo inclusive do já modesto resultado de 2024 (0,59%).
Enquanto isso, o Rio de Janeiro ampliou ainda mais sua hegemonia e passou a concentrar 87,8% de todo o petróleo produzido no país. Espírito Santo (5,12%), São Paulo (4,89%) e Rio Grande do Norte (0,83%) completam o ranking dos cinco primeiros.
No gás natural, o retrato não é muito diferente. O Rio de Janeiro segue isolado na liderança, com 76,9% da produção nacional. A Bahia aparece apenas na sexta posição, com 2,17%, atrás de Amazonas, São Paulo, Espírito Santo e Maranhão.
O dado da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) revela uma mudança estrutural.
Na Bahia, a produção de petróleo está praticamente restrita a campos maduros, operados majoritariamente por produtores independentes como PetroReconcavo, 3R, Alvopetro e Petroborn.
São empresas que cumprem um papel relevante ao estender a vida útil de ativos já exauridos, mas com capacidade limitada de alterar o peso do estado no cenário nacional.
O contraste chama atenção: um estado com tradição, infraestrutura instalada e histórico técnico robusto, mas cada vez mais distante do centro das decisões, dos grandes investimentos e das novas fronteiras exploratórias.
A pergunta que fica é inevitável: a Bahia se conformou em administrar o passado do petróleo enquanto outros estados disputam o futuro da energia no Brasil?
Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
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