O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (5), para 14% ao ano. É o mesmo ritmo de corte das últimas reuniões, e a decisão foi recebida com aprovação, mas também com cobrança, pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Para a CNI, o problema não é a direção do corte, é o tamanho dele. A entidade calcula que a Selic está 3,6 pontos percentuais acima do que seria adequado pela Regra de Taylor – metodologia que estima a taxa de juros ideal para controlar a inflação sem sufocar o crescimento – , hoje em 10,4%. Na prática, isso significa uma taxa de juros real de cerca de 10%, o dobro da taxa de equilíbrio de longo prazo estimada pelo próprio Banco Central, de 5%.
“Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto. A decisão do Banco Central piora a perspectiva para a indústria, já tão prejudicada pelas incertezas no cenário externo. Além disso, o crédito caro compromete gravemente a renda das famílias, que já apresentam níveis recordes de endividamento e inadimplência”, disse o presidente da CNI, Ricardo Alban.
O apoio ao corte se sustenta nos números de inflação, que vêm perdendo força. O IPCA-15 acumula alta de 4,52% em 12 meses até julho, abaixo dos 4,8% do mês anterior, e a média dos núcleos de inflação de junho ficou em 4,44%, patamar mais próximo da meta de 3% do Banco Central.
As projeções do Boletim Focus para 2027 e 2028 já estão dentro do intervalo de tolerância da meta, mesmo com o IPCA de 2026 projetado em 5,03%.
Custo do dinheiro
Enquanto isso, o custo do dinheiro caro já aparece no caixa das empresas. Levantamento da CNI mostra que 53% das indústrias esperam aumento na necessidade de financiamento para pagar contas nos próximos três meses, 47% preveem pressão sobre contas a receber e 42% sobre estoques, sinais de que o capital de giro está mais apertado.
Entre as empresas que vão precisar de mais crédito, 55% esperam pagar mais caro por ele, e 58% projetam queda na margem líquida. Diante do aperto, 51% pretendem segurar preços para não perder competitividade frente a produtos importados, enquanto 37% já planejam repassar o custo extra ao preço final, o que pressiona a inflação de volta.
Argumento da Fieb
A comparação internacional reforça o argumento da Fieb para pedir continuidade no ciclo de cortes. Enquanto os Estados Unidos operam com juros entre 3,50% e 3,75% ao ano, a Zona do Euro está em 2,40% e o México, outra economia emergente, em 6,50%. O Brasil, mesmo após sucessivos cortes, segue com o custo de capital muito acima dessas referências, o que, segundo a Federação, compromete a competitividade da indústria brasileira no mercado externo.
Há um efeito colateral que ajuda a conter a inflação sem depender só do juro alto: o real segue valorizado, com alta de 8,6% frente ao dólar nos últimos 12 meses, atraindo capital estrangeiro atraído pelo diferencial de juros do país. Esse fluxo de dólares barateia importações e ajuda a segurar preços, mas é um alívio que depende da manutenção de juros elevados, o que trava investimento produtivo do outro lado da equação.
Do lado das famílias, o crédito caro também aperta o orçamento. O endividamento está em patamar crítico, e o programa “Desenrola 2.0”, lançado para reduzir a inadimplência, ataca o sintoma – não a causa. Enquanto a Selic não cair de forma mais consistente, o custo do refinanciamento de dívidas familiares segue elevado, reduzindo a renda disponível para consumo.
“A Federação reafirma sua confiança de que o Banco Central, preservando o rigor técnico de suas decisões, saberá ponderar os desafios enfrentados pela economia real e contribuir para a construção de um ambiente mais favorável ao crescimento, à ampliação dos investimentos e à geração de empregos”, diz a entidade, em nota.
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