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Capa Química & Petroquímica

Os números que a indústria química usa para contestar o tarifaço dos EUA

Superávit americano de US$9 bi no comércio com o Brasil é o principal argumento da Abiquim contra a nova sobretaxa

MARCELO SAMPAIO por MARCELO SAMPAIO
17/07/2026
em Química & Petroquímica
Tempo de Leitura: 4 minutos
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André Passos Cordeiro

André Passos Cordeiro: "Se há algum desequilíbrio nessa relação, ele é favorável aos Estados Unidos, e não ao Brasil"

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A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) entrou oficialmente no debate sobre o novo pacote de tarifas anunciado pelos Estados Unidos e classificou como injustificada a decisão de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. Para a entidade, a medida desconsidera a realidade do comércio bilateral e cria dificuldades para cadeias produtivas integradas entre os dois países.

O posicionamento ganha peso porque a indústria química e petroquímica figura entre os setores mais afetados pelo tarifaço. Na Bahia, a preocupação é ainda maior devido à importância do Polo Industrial de Camaçari, um dos maiores complexos petroquímicos da América Latina e responsável por uma parcela significativa das exportações industriais do estado.

Segundo a Abiquim, a própria balança comercial desmonta o argumento econômico utilizado pelos Estados Unidos. Em 2025, empresas norte-americanas venderam cerca de US$11,5 bilhões em produtos químicos ao Brasil, enquanto importaram apenas US$2,1 bilhões de produtos brasileiros, acumulando um superávit superior a US$ 9 bilhões.

“Se há algum desequilíbrio nessa relação, ele é favorável aos Estados Unidos, e não ao Brasil”, afirmou o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro.

Cadeias produtivas integradas

Outro argumento apresentado pela entidade é que muitos dos produtos químicos exportados pelo Brasil abastecem segmentos industriais que não possuem produção suficiente – ou sequer fabricam esses insumos – nos Estados Unidos.

Na prática, segundo a Abiquim, a sobretaxa pode acabar elevando custos para a própria indústria americana, que terá de buscar fornecedores alternativos ou pagar mais caro pelos produtos.

Além disso, a associação lembra que a indústria química norte-americana já opera com vantagens competitivas importantes, especialmente pelo acesso a matérias-primas como gás natural e etano a preços significativamente inferiores aos praticados no Brasil.

Impacto permanece elevado

Embora parte dos produtos químicos tenha permanecido na lista de exceções divulgada pelo governo norte-americano, a Abiquim avalia que o impacto continua expressivo.

Dos 1.177 códigos tarifários utilizados nas exportações do setor químico para os Estados Unidos, 684 continuam sujeitos à tarifa adicional, enquanto apenas 493 ficaram isentos.

Na prática, cerca de 58% da pauta exportadora do setor, em número de produtos, permanece atingida pela nova tributação.

A estimativa da entidade é que, mantido o ritmo atual das exportações, o custo adicional provocado pelas tarifas alcance aproximadamente US$66 milhões ainda em 2026, podendo chegar a US$133 milhões em um ano completo.

Segmentos mais vulneráveis

Os maiores impactos devem atingir os segmentos de:

  • Tintas, vernizes e lacas;
  • Fibras têxteis sintéticas;
  • Sabões, detergentes e produtos de perfumaria;
  • Químicos orgânicos;
  • Resinas e elastômeros.

Já áreas como químicos inorgânicos e defensivos agrícolas tendem a sofrer efeitos menores devido ao maior número de produtos contemplados pelas exceções.

O que a Abiquim pede

Diante do novo cenário, a entidade apresentou três prioridades ao governo brasileiro:

  • criação de medidas temporárias para reduzir os impactos financeiros sobre as empresas exportadoras;
  • continuidade das negociações com os Estados Unidos para ampliar a lista de produtos isentos;
  • manutenção das medidas brasileiras de defesa comercial para evitar aumento das importações realizadas em condições consideradas desleais.

Segundo André Passos Cordeiro, uma escalada da disputa comercial pode gerar prejuízos para empresas dos dois países.

“A imposição dessas tarifas não encontra fundamento na realidade econômica do comércio bilateral e tende a gerar custos e ineficiências para cadeias produtivas integradas nos dois países.”

Análise

O posicionamento da Abiquim reforça um movimento que começa a ganhar força entre as principais entidades industriais brasileiras. Primeiro foi a CNI. Depois a Fieb. Agora, a indústria química também converge para a mesma estratégia: negociar, ampliar as exceções e evitar uma guerra comercial.

Na Bahia, esse debate ganha uma dimensão ainda maior. O Polo Industrial de Camaçari concentra empresas químicas e petroquímicas que dependem do mercado externo e já figuram entre os segmentos mais afetados pela nova tarifa de 25%.

Outro ponto chama atenção. A Abiquim desmonta um dos principais argumentos econômicos utilizados para justificar a medida. Enquanto os Estados Unidos acumulam um superávit superior a US$ 9 bilhões no comércio de produtos químicos com o Brasil, a sobretaxa passa a incidir justamente sobre uma relação comercial em que os americanos já são amplamente superavitários.

A mensagem das entidades industriais é praticamente unânime: o caminho para reduzir os impactos passa pela negociação diplomática, e não pela escalada de medidas de retaliação. Para estados exportadores como a Bahia, essa negociação poderá ser decisiva para preservar contratos, investimentos e competitividade da indústria.


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Tags: AbiquimAssociação Brasileira da Indústria QuímicaBahiaBrasilCNIEstados UnidosFiebindústria químicapetroquímicaPolo Industrial de Camaçaritaifaço
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