Por Valeria Silva*
Durante muito tempo, a maternidade foi encarada pelo mercado de trabalho como uma pausa na carreira. Em muitos casos, ainda é. Mas essa visão vem sendo questionada à medida que empresas e lideranças percebem que as experiências adquiridas na criação dos filhos desenvolvem competências cada vez mais valorizadas no ambiente corporativo, como inteligência emocional, resiliência, capacidade de adaptação e gestão de prioridades.
Essa mudança de percepção é respaldada por pesquisas recentes. Um estudo publicado em 2025 na Brazilian Administration Review, revista científica da Fundação Getulio Vargas (FGV), entrevistou mulheres que ocupam cargos de liderança em grandes empresas brasileiras para compreender como elas conciliam maternidade e carreira.
A pesquisa identificou que, embora a maternidade aumente as demandas profissionais e pessoais, ela também fortalece recursos importantes para a atuação executiva, como maior capacidade de organização, gestão de prioridades, inteligência emocional, construção de redes de apoio e desenvolvimento de competências de liderança. As participantes relataram que a experiência da maternidade ampliou habilidades como escuta ativa, resolução de problemas complexos, negociação e tomada de decisão em cenários de alta pressão.
O estudo também chama atenção para um aspecto importante: muitas dessas profissionais ainda enfrentam preconceitos relacionados à maternidade no ambiente corporativo. Entre os principais obstáculos apontados estão a falta de apoio das empresas no retorno da licença-maternidade, a percepção de que mães estariam menos disponíveis para assumir novos desafios e a necessidade constante de provar sua capacidade profissional. Algumas entrevistadas afirmaram, inclusive, ter desistido de disputar cargos mais altos em determinados momentos da carreira devido à dificuldade de conciliar responsabilidades familiares e profissionais.
A maternidade nos ensina diariamente que nem sempre existe controle absoluto sobre todas as situações
Entre os fatores que mais contribuíram para que essas mulheres permanecessem em posições de liderança destacam-se o trabalho remoto, horários flexíveis, redes de apoio familiares e organizacionais e gestores que compreendem as demandas da parentalidade. Segundo as autoras, esses recursos não apenas reduzem o conflito entre trabalho e família, mas favorecem a permanência de mulheres em cargos estratégicos e contribuem para diminuir desigualdades de gênero nas organizações.
Como futura mãe do João e executiva, acredito que essa conclusão faz muito sentido. A maternidade nos ensina diariamente que nem sempre existe controle absoluto sobre todas as situações. Aprendemos a tomar decisões rápidas, administrar imprevistos, ouvir antes de agir e compreender diferentes necessidades ao mesmo tempo. Essas habilidades, desenvolvidas dentro de casa, acompanham naturalmente muitas mulheres quando assumem posições de liderança.
Existe também uma transformação importante na forma como enxergamos as pessoas. Liderar deixa de ser apenas entregar resultados e passa a significar criar ambientes onde cada profissional possa desenvolver seu potencial. Afinal, quem aprende diariamente a cuidar, orientar e incentivar o crescimento de outra pessoa leva esse olhar para qualquer equipe que lidera.
Isso não significa romantizar os desafios. Conciliar maternidade e carreira continua exigindo um enorme esforço. A chamada “penalidade da maternidade” ainda é uma realidade para muitas mulheres, que enfrentam barreiras para promoções, crescimento profissional e permanência no mercado de trabalho após a chegada dos filhos. Por isso, mais do que reconhecer as competências desenvolvidas pela maternidade, as empresas precisam criar condições para que elas possam ser exercidas sem que isso represente uma desvantagem na trajetória profissional.
Na empresa em que trabalho acreditamos que cuidar faz parte da nossa essência. Cuidamos das roupas das pessoas para facilitar suas rotinas, mas também entendemos que cuidar das pessoas que fazem parte do nosso negócio é igualmente importante. Valorizar diferentes trajetórias de vida, respeitar os momentos de cada profissional e criar oportunidades de desenvolvimento são escolhas que fortalecem qualquer organização.
Eu acredito que a liderança do futuro será construída por pessoas capazes de equilibrar resultados e empatia. E, nesse contexto, a maternidade deixa de ser vista como um obstáculo para revelar aquilo que ela realmente representa: uma das mais completas escolas de desenvolvimento humano e de liderança.
- Valeria Silva é CEO de OMO Lavanderia e Gerente da Unilever
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