A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) entrou no debate sobre os impactos do conflito no Oriente Médio com um recado direto ao mercado: não há risco de desabastecimento de produtos químicos no Brasil no curto prazo. Segundo a entidade, apesar da volatilidade global provocada pela escalada de tensões na região, as análises mais alarmistas que circularam recentemente não refletem a dinâmica real do setor. Isso porque a indústria química opera majoritariamente com contratos de médio prazo, o que reduz a transmissão imediata de oscilações de preços e garante previsibilidade no fornecimento.
Na prática, o cenário doméstico é até oposto ao de escassez. O Brasil convive hoje com elevada ociosidade industrial. Em 2025, o nível médio chegou a 41% – o pior patamar em três décadas – e, em alguns segmentos, como intermediários para plásticos, ultrapassa 45%. Há, portanto, capacidade instalada suficiente para atender à demanda interna mesmo em um cenário de restrição de importações. “Temos ampla capacidade disponível na produção de resinas termoplásticas (incluindo PE, PP e PVC)”, diz comunicado distribuído pela entidade.
A avaliação da Abiquim indica que o principal desafio da indústria química brasileira não está na oferta, mas na competitividade. O setor enfrenta custos elevados de energia e gás natural, além de pressões regulatórias e concorrência externa considerada desleal.
Esse quadro ajuda a explicar um movimento recente: o aumento expressivo das importações. Historicamente, o Brasil importa entre 25% e 30% das resinas que consome. Esse percentual, porém, saltou para cerca de 46% entre 2024 e 2025, ampliando ainda mais a ociosidade das plantas nacionais.
De acordo com a entidade, esse avanço das importações não tem relação direta com o conflito no Oriente Médio. A maior parte dos produtos vem de regiões como Estados Unidos, China e outros países asiáticos, além do Egito — mercados que, até o momento, não enfrentam impactos logísticos relevantes decorrentes das tensões geopolíticas.

Setor testado — e aprovado
Em nota distribuída à imprensa, a Abiquim também recorre ao histórico recente para reforçar sua posição. Durante o auge da pandemia de Covid-19, entre 2021 e 2022, o setor conseguiu manter o abastecimento de insumos essenciais, mesmo diante de uma crise global sem precedentes.
A combinação de produção nacional, estoques e importações complementares evitou rupturas no fornecimento para cadeias críticas, como alimentos, saúde e embalagens – um indicativo de resiliência que, segundo a entidade, se mantém no cenário atual.
Preços sob pressão, mas sem distorções imediatas
No campo dos preços, a entidade reconhece que há pressão global, puxada principalmente pela alta do petróleo. Ainda assim, avalia que o conflito é recente e não há dados suficientes para medir sua extensão sobre custos e competitividade.
A leitura é que, historicamente, momentos de volatilidade tendem a impactar toda a cadeia produtiva, sem necessariamente gerar ganhos extraordinários para a indústria química.
O que está em jogo
O posicionamento da Abiquim joga luz sobre um ponto central: o risco imediato não é falta de produto, mas perda de espaço da indústria nacional.
Com capacidade ociosa elevada e avanço das importações, o setor pressiona por medidas de defesa comercial, como instrumentos antidumping e mecanismos de correção de desequilíbrios concorrenciais.
No fim, o alerta é claro. Em um ambiente global instável, garantir oferta não é o problema – o desafio real é preservar a competitividade de quem produz no Brasil.
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