O grupo CVLB Brasil, controlador das redes Le Biscuit e Casa & Video, entrou com pedido de recuperação judicial nesta quarta-feira (29), em meio a um cenário de deterioração financeira e pressão crescente sobre o varejo voltado às classes de menor renda. A medida formaliza um movimento que já vinha sendo desenhado desde janeiro, quando a companhia obteve na Justiça uma tutela cautelar que suspendeu cobranças por 60 dias, abrindo espaço para negociação com credores. Naquele momento, o grupo já indicava dificuldades de liquidez, pressionado por juros elevados, crédito restrito e queda no poder de compra das classes C, D e E.
Agora, ao acionar o instrumento previsto na Lei nº 11.101/2005, a CVLB busca ampliar a proteção jurídica e dar maior previsibilidade ao processo de reestruturação. Segundo a companhia, a decisão não representa abandono das negociações, mas sim uma forma de “conferir maior estabilidade” ao processo.
Apesar do pedido, o grupo afirma que a operação segue normalmente, com lojas físicas e canais digitais em funcionamento. A empresa também informou que pretende acessar um financiamento de até R$75 milhões, sujeito à aprovação judicial, para reforçar o capital de giro e garantir a continuidade das atividades durante a reestruturação.
Raízes na Bahia e expansão nacional
O movimento acende um alerta relevante para o varejo nordestino, especialmente pela presença da Le Biscuit – empresa com origem em Feira de Santana e forte atuação na Bahia, onde construiu sua base de crescimento antes de avançar para outras regiões do país.
Após a fusão com a Casa & Video, em 2022, a companhia passou a operar uma estrutura com centenas de lojas, sendo a marca carioca mais concentrada no Sudeste, enquanto a Le Biscuit mantém forte presença no Norte e Nordeste.
Deterioração financeira e mudança no consumo
Os números recentes ajudam a explicar a decisão. Nos nove primeiros meses de 2025, o grupo registrou vendas de R$ 1,82 bilhão, queda de 6,5% na comparação anual. No mesmo período, o prejuízo líquido saltou 80%, chegando a R$ 246 milhões.
O endividamento também avançou, atingindo cerca de R$689 milhões, em um contexto de aumento do custo financeiro e dificuldade de rolagem de dívidas.
Além dos fatores macroeconômicos, a própria companhia reconhece mudanças no comportamento do consumidor. A combinação de inflação, juros elevados e novas dinâmicas de consumo – com maior pressão do e-commerce e disputa pela renda disponível – tem afetado diretamente o desempenho do varejo popular.
Um setor sob pressão
O caso da CVLB reforça um diagnóstico mais amplo: o varejo brasileiro, especialmente o voltado às classes de renda mais baixa, atravessa um momento de forte ajuste. Empresas com margens mais apertadas e alta dependência de crédito ao consumidor tendem a sentir primeiro os efeitos de um ambiente de juros elevados e desaceleração do consumo.
A recuperação judicial, nesse contexto, surge menos como um evento isolado e mais como um sintoma de um setor que ainda busca reequilibrar sua estrutura financeira diante de um novo ciclo econômico.
O que está em jogo
Para a CVLB, o desafio agora será executar um plano de reestruturação capaz de equilibrar dívida, operação e competitividade, mantendo relevância em um mercado cada vez mais pressionado por preço, eficiência logística e transformação digital.
Para o mercado, o caso serve como sinal de alerta: crescer em escala no varejo brasileiro continua possível, mas sustentar essa expansão em um ambiente macroeconômico adverso exige cada vez mais disciplina financeira e adaptação rápida ao comportamento do consumidor.
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