Após anos de impasses técnicos e ambientais, a Infra S.A. assinou um contrato de R$467,9 milhões para concluir um dos trechos mais sensíveis da Ferrovia de Integração Oeste–Leste (Fiol II) na Bahia. A formalização foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (5) e marca a tentativa de destravar uma obra que há anos patina entre desafios técnicos, ambientais e financeiros.
O contrato foi firmado com o Consórcio A.Gaspar/Vipetro, responsável pela elaboração dos projetos básico e executivo e pela execução das obras remanescentes do Lote 05FC, trecho de 35,75 quilômetros entre os municípios de Guanambi e Caetité.
Conhecido como traçado de Ceraíma, o segmento exigiu um redesenho completo da engenharia para afastar a ferrovia da barragem e da Vila de Ceraíma, onde vivem cerca de 700 moradores. O reservatório é considerado estratégico para o abastecimento do perímetro irrigado da região e integra o Sistema Adutor do Algodão, responsável por fornecer água a cidades e distritos do entorno.
Ao retirar a ferrovia da borda da barragem e reorganizar o traçado, a Infra S.A. elimina um dos principais entraves históricos do empreendimento e sinaliza ao mercado que o projeto volta a avançar. O contrato foi firmado em regime integrado, no qual a mesma empresa elabora os projetos e executa a obra – modelo que busca acelerar a implementação e reduzir riscos de paralisações.
O contrato tem vigência de 47 meses, com prazo de 43 meses para execução após a ordem de serviço, e inclui uma reserva de contingência de 3,2%, prevista na matriz de riscos.
Impasse técnico
Para o diretor-presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, a assinatura do contrato encerra um impasse técnico que se arrastava há mais de uma década. “Reestruturamos o traçado, fortalecemos a governança ambiental e organizamos uma matriz de riscos transparente para dar previsibilidade a um trecho sensível”, afirmou.
Segundo ele, o novo desenho busca conciliar infraestrutura e preservação ambiental. “Estamos falando de um manancial estratégico, de uma comunidade consolidada e de uma atividade mineral tradicional. O novo projeto garante segurança hídrica, proteção às moradias e viabilidade operacional da ferrovia.”
Com 481 quilômetros de extensão, a Fiol II integra o corredor logístico que ligará o interior da Bahia ao litoral sul do estado, conectando-se ao futuro sistema ferroviário nacional. Quando concluído, o projeto deverá alcançar capacidade de até 50 milhões de toneladas por ano, principalmente de grãos e minérios.
Continuidade
Para o diretor de Empreendimentos da estatal, André Ludolfo, o novo contrato garante continuidade ao corredor logístico. “Trata-se de um lote estratégico para consolidar o trecho Caetité–Barreiras”, afirmou. Segundo ele, a ferrovia já alcançou 71% de execução física, com mais de 46% dos trilhos lançados.
“Com o 05FC contratado, eliminamos um dos principais gargalos técnicos da ferrovia. É uma obra que exige precisão cirúrgica em campo, sobretudo pelo contexto geológico e pela proximidade de estruturas sensíveis”, explicou.
O Lote 05FC foi desmembrado do antigo 5F após restrições ambientais impostas pelo Ibama no entorno do reservatório de Ceraíma. O novo projeto desloca o eixo ferroviário para ampliar a margem de segurança e incorpora soluções de engenharia voltadas ao controle de vibrações, detonações e monitoramento geotécnico.
A reconfiguração também alcança o trecho próximo a uma mina subterrânea de ametistas em Brejinho das Ametistas, onde um corte em rocha deverá ocorrer a cerca de 100 metros das galerias minerárias – área considerada geologicamente sensível.
O outro lado da ferrovia
Apesar do avanço na Fiol II, o cenário permanece travado no primeiro trecho da ferrovia. A Bahia Mineração (Bamin), responsável pela Fiol I, mantém as obras praticamente paradas.
Nos bastidores, porém, um novo capítulo pode destravar o projeto. O grupo português Mota-Engil está em fase avançada de due diligence para assumir o controle da Mina Pedra de Ferro, em Caetité, além das concessões da Fiol I e do Porto Sul, em Ilhéus.
A operação pode destravar um pacote estimado em R$ 15 bilhões em investimentos na Bahia – justamente o empurrão que falta para transformar a ferrovia, há anos prometida, em realidade logística.
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