Iarodi D. Bezerra*
Assisto a um vídeo rápido que surge na tela do celular: um animal fofo se transforma em outro bem diferente — feroz. Ao fundo, uma voz masculina, empostada, injeta no ânimo uma dose de falsa ousadia, dizendo: “Mude!”
Quem nunca se agitou positivamente após ver algum vídeo assim? Confesso: acho bonito. Porém, são mensagens que provocam mudanças que arranham apenas a superfície — a casca humana.
Por outro lado, há convites para a mudança que exercem um efeito mais profundo — sobretudo quando se trata da atitude.
Quando a decisão é genuína, tem poder para quebrar os grilhões dos maus hábitos que nos escravizam; altera comportamentos danosos a nós mesmos e aos outros.
Além disso, desenvolve habilidades antes adormecidas, revelando novos rearranjos nas áreas financeira, afetiva e laboral.
Já se perguntou “para quê mudar”?
Algo em nós começa a orbitar em torno do próprio pensamento — uma força que pulsa, repetidamente, até gerar um desconforto arbitrário.
Essa jornada, muitas vezes, desemboca no ambiente terapêutico, onde a pessoa inicia uma travessia pelo próprio interior, mapeando os pontos até chegar ao seu nascedouro detestável.
Mude — dirá agora não mais um vídeo qualquer, mas a sua própria consciência, que ganhou voz após longos diálogos internos.
Essa mudança, embora etérea, tem o potencial de uma bomba atômica reversa — que, em vez de destruir, constrói.
Ela, ao “explodir”, afeta o alicerce da alma, reestruturando-a e enxertando novos valores sobre si mesma; espalha partículas de virtude pelo interior, envolvendo o centro nervoso da essência e iluminando-o com uma autenticidade jamais experimentada.
Talvez seja isso a mudança: um animal manso despertando sua força, uma alma tímida reencontrando o seu rugido. E, no fim, não é o vídeo que diz “mude”, é a própria vida sussurrando —com doçura e firmeza —mude-se
É importante salientar que todo convite à mudança carrega consigo dois aspectos.
O primeiro é o confronto, feito por algum interlocutor— consciente ou não— que age como agente de transformação. Seu papel é desafiar, cutucar, questionar…e, por vezes, ferir — sempre por meio de verdades necessárias. Um ponto importante: ele não impõe a mudança, ele aponta o caminho.
Já o segundo aspecto é a dor. Pois ser confrontado a mudar sempre dói. Fato. Traço um paralelismo com uma cirurgia na qual a anestesia começa a perder o efeito — por isso dói, e muito.
Sabe, é natural que quem vive o papel de confrontado veja o outro como um vilão, pois acredita que não era hora de sair da zona de conforto — e, por isso, não enxerga os benefícios dessa experiência.
“Quais benefícios?”, poderia perguntar.
Respondo: Não é bom se tornar um bom pai, uma boa mãe, um bom marido, uma boa esposa, um bom filho ou uma boa filha? Ser zeloso com as próprias responsabilidades no dia a dia a ponto de prosperar em tudo o que faz?
Mudar é crescer. E o convite é esse: quer crescer? Tenha coragem, mude!
Eu entendo que o mudar de dentro para fora é navegar em um oceano de certezas: certeza de quem se é, do que se quer e para onde se vai.
Como diria Luís de Camões, “ao mudar-se, muda-se a confiança.”
E, quando a confiança muda, algo se acende no invisível — uma faísca que ilumina o próprio abismo, onde a ignorância costumava habitar.
Talvez seja isso a mudança: um animal manso despertando sua força, uma alma tímida reencontrando o seu rugido. E, no fim, não é o vídeo que diz “mude”, é a própria vida sussurrando —com doçura e firmeza —mude-se.
- Iarodi D. Bezerra é Psicoterapeuta. Atua no atendimento infanto-juvenil e de adultos. Facilitador de grupos de psicoterapia.
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Leia também: A vida é para se viver!

















Texto maravilhoso.
Mudar requer mais que desejo, requer determinação. E quando isso acontece, a confiança e a autoestima se elevam.
” E quando a confiança muda, algo se acende no invisível — uma faísca que ilumina o próprio abismo, onde a ignorância costumava habitar.”