Iarodi D. Bezerra*
Eu tenho certa admiração por títulos de livros. Você já parou para observar a preciosidade que nomeia obras de arte, sobretudo literárias? Eles possuem em seus nuances, vários tons de afeto em sua superfície que conseguimos sentir sua textura com a ponta dos dedos d’alma.
Um caso de títulos que me tocam é o da obra de Paulo Coelho que li na adolescência, “Nas margens do Rio Piedra sentei e chorei”. Ele reapareceu do nada em minhas lembranças após uma sessão. Confesso que não recordo da história, mas tenho imagens de ficar contemplando a capa, sobretudo o título. De como, em minhas fantasias, elaborava hipóteses, tal qual um meticuloso “titulógrafo” o autor havia navegado em ondas da criatividade para chegar naquela frase. Certamente não descobri a real, mas ativou o modo criatividade à época! A realidade é que existem obras com títulos tão poderosos que a editora bastaria vender a capa sem as páginas, pois já passaria já passaria toda a informação necessária., como o caso do livro de Carl Rogers: “Um jeito de ser”.Quatro palavras que dizem tanto! Basta uma leitura rápida e você já tem noção do que é preciso fazer para sermos melhores?
Posso passar o dia inteiro citando títulos de obras, mas seguem alguns que me marcaram ao longo da minha vida: Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, Sobrevivi para contar, de Immaculée Ilibagiza, Nos ombros de gigantes, de Umberto Eco, A cura de Schopenheuer, do psiquiatra Irv Yalom, O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, A hora da estrela, de Clarice Lispector, A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, entre tantas outras. (Podendo estender para os filmes, a música, pinturas).
E após décadas, a escrita me trouxe, finalmente, o segredo da onda criativa de Paulo Coelho que eu tanto tentava entender: o título é feito dentro do coração do autor e depois ele rabisca o corpo do texto!
E após décadas, a escrita me trouxe, finalmente, o segredo da onda criativa de Paulo Coelho que eu tanto tentava entender: o título é feito dentro do coração do autor e depois ele rabisca o corpo do texto!
Talvez seja por isso que se encontre tantas pessoas adoecidas mentalmente pelo mundo. Elas perderam a capacidade de criar seus títulos, permitindo que terceiros vandalizem as suas capas existenciais, determinando o modo que se deve viver. O nome disso é rótulo. Sendo oposto de título, asfixia, limita as potencialidades, encarcera a alma em lugares obscuros. Enquanto o título, é genuíno, brota da essência e flui de dentro para fora como se fosse um rio.
A ação da marca de um título em nossas vidas a pontos importantes que funcionam integradas, como uma engrenagem de um poderoso maquinário que é você. Diria que em primeiro lugar ele aponta para a função de excelência de nossa criação. Em segundo, nos coloca diante da porta que dá acesso á estrada para a liberdade de ser. O terceiro ponto, gera a partir daí o poder do protagonismo em nossas vidas, uma força contundente para combater toda aflição da opressão que a pós-modernidade nos impõe.
Dito isso, então, não seria a hora de parar nesse exato momento essa corrida que tem se tornado a vida ordinária para se debruçar sobre uma profunda avaliação: você está vivendo sob o peso do rótulo ou deleitando-se com o seu título!
De qualquer maneira, te pergunto: qual é o título de sua vida?
- Iarodi D. Bezerra é Psicoterapeuta. Atua no atendimento infanto-juvenil e de adultos. Facilitador de grupos de psicoterapia.
















