
A indústria calçadista brasileira calcula que a nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos deve aprofundar a perda de competitividade do produto nacional justamente em seu principal mercado externo. A partir da decisão divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o calçado brasileiro passará a enfrentar uma sobretaxa total de 37,5% para entrar no mercado norte-americano, elevando a pressão sobre um setor que já revisou para baixo suas projeções de exportação em 2026.
A medida decorre da conclusão da investigação conduzida com base na Seção 301, relacionada à importação de produtos de países enquadrados em práticas consideradas pelos Estados Unidos como ligadas ao trabalho forçado. O Brasil está entre as 60 economias atingidas pela decisão.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), o novo anúncio representa um agravamento de um cenário que já vinha sendo considerado crítico desde a imposição da tarifa adicional de 25%.
“O que estava ruim ficou pior”, resume o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira. Na prática, explica, o impacto adicional será de 2,5 pontos percentuais em relação ao cenário vigente, já que a tarifa global de 10% deixa de ser aplicada. Ainda assim, o resultado final amplia a carga tributária incidente sobre o produto brasileiro e aumenta a distância em relação aos principais concorrentes internacionais.
Concorrência asiática ganha vantagem
A principal preocupação do setor não é apenas o aumento do custo para acessar o mercado americano, mas a perda de competitividade frente aos fabricantes asiáticos.
Na avaliação da Abicalçados, países como Vietnã, Indonésia e Camboja tendem a ampliar sua participação nas compras dos Estados Unidos, reduzindo ainda mais o espaço ocupado pelo produto brasileiro.
Os Estados Unidos respondem atualmente por cerca de 20% da receita obtida com as exportações brasileiras de calçados, mantendo-se como o principal destino internacional do setor. A Argentina aparece em segundo lugar, com aproximadamente 10%.
Diante desse cenário, a entidade revisou recentemente suas projeções para este ano. Antes do anúncio das novas tarifas, a expectativa era de retração de 3,6% nas exportações em volume. Agora, a estimativa passou para uma queda superior a 7%.
Crédito é bem recebido
A nova fase do Plano Brasil Soberano, anunciada pelo governo federal, foi considerada um passo importante pela indústria, mas insuficiente para neutralizar os efeitos das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
O programa disponibiliza R$18,5 bilhões em linhas de financiamento para empresas afetadas pelas tarifas norte-americanas. Desse total, R$ 13,5 bilhões serão provenientes do Tesouro Nacional e R$5 bilhões do BNDES.
Os recursos poderão ser utilizados para capital de giro, aquisição de máquinas e equipamentos, investimentos produtivos, inovação, adaptação de processos e abertura de novos mercados, com taxas entre 6,5% e 9,8% ao ano, dependendo da modalidade.
Para a Abicalçados, porém, o crédito funciona como um instrumento de mitigação temporária.
Segundo Haroldo Ferreira, o financiamento pode ajudar as empresas a enfrentar o momento, mas sua efetividade dependerá da perspectiva de normalização das relações comerciais. Sem isso, afirma, o setor continuará perdendo mercado.
Reintegra e defesa comercial entram na pauta
Além das linhas de crédito, a entidade voltou a defender um pacote de medidas voltadas à competitividade das exportações.
Entre as prioridades está a ampliação do Reintegra, mecanismo que devolve créditos tributários às empresas exportadoras. Atualmente, o percentual de restituição é de apenas 0,1%, embora a legislação permita elevar a alíquota para até 5%.
Na avaliação da associação, a ampliação do benefício ajudaria a reduzir parte das perdas provocadas pelo aumento das tarifas americanas.
Outra reivindicação é o fortalecimento dos instrumentos de defesa comercial para conter o avanço das importações.
A preocupação ganhou força diante do crescimento das compras externas de calçados, principalmente de países asiáticos. Somente no primeiro semestre deste ano, o Brasil importou mais de 25 milhões de pares, alta de 15,6% em relação ao mesmo período anterior, mesmo em um ambiente de mercado doméstico estagnado e produção nacional em retração.
Segundo a entidade, sem mecanismos de proteção, parte da produção que deixará de ser absorvida pelo mercado norte-americano poderá aumentar a competição dentro do próprio mercado brasileiro, pressionando ainda mais a indústria nacional.
Análise
O novo aumento tarifário reforça que o desafio da indústria calçadista brasileira deixou de ser apenas conjuntural. A combinação entre perda de competitividade externa e crescimento das importações cria uma pressão simultânea sobre dois mercados estratégicos: o internacional e o doméstico.
O Plano Brasil Soberano oferece fôlego financeiro às empresas, mas não altera o fator central da crise: o acesso ao principal mercado consumidor do setor ficou mais caro. Enquanto isso, concorrentes asiáticos continuam ampliando sua vantagem competitiva.
A tendência é que a discussão avance para além das linhas de crédito e passe a concentrar esforços em política comercial, incentivos às exportações e mecanismos de defesa da indústria nacional.
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