
Em meados dos anos 2000, quem passava pelo Polo Industrial de Camaçari via surgir mais uma aposta na diversificação da indústria baiana. A chegada da Britânia Eletrodomésticos representava muito mais do que uma nova fábrica. Era a entrada de uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro em um mercado que crescia rapidamente: o Nordeste.
Fundada em 1956, no Paraná, a Britânia construiu sua reputação fabricando fogões, fogareiros e móveis metálicos antes de se tornar uma das maiores fabricantes nacionais de eletroportáteis. Em 2003, a empresa escolheu Camaçari para instalar sua primeira grande unidade industrial fora da região Sul. A decisão tinha um objetivo claro: aproximar a produção dos consumidores nordestinos e reduzir custos logísticos.
Segundo reportagem da Gazeta Mercantil publicada em julho de 2003, a empresa investiu inicialmente R$25 milhões na implantação da fábrica, instalada em uma área de 50 mil metros quadrados. A expectativa era produzir cerca de 1,2 milhão de aparelhos por ano, entre ventiladores, ferros elétricos, batedeiras, liquidificadores e espremedores, além de gerar aproximadamente 400 empregos diretos.
A inauguração oficial aconteceu em 3 de novembro de 2003, e o clima era de euforia. A unidade ocupava uma área total de 50 mil metros quadrados – cedida pela Prefeitura de Camaçari, que também concedeu isenção de IPTU e ISS para atrair o investimento – e previa produzir 1,2 milhão de aparelhos por ano: ventiladores, ferros elétricos, batedeiras, liquidificadores e espremedores de frutas.
Segundo a Gazeta Mercantil de novembro de 2003, a fábrica baiana chegaria a representar entre 35% e 40% da receita total da Britânia. A meta era conquistar 20% do mercado nordestino em até um ano — a empresa estava em apenas 12% na região. Eram 300 empregos diretos, com previsão de ampliar para 400 postos. Em 60 dias, já se anunciava um aporte adicional de R$10 milhões para expandir a produção em 30%.
Havia também um detalhe pitoresco e revelador nas projeções da empresa: a Britânia planejava exportar 10% da produção de Camaçari para Argentina, Uruguai, Paraguai e Peru. A fábrica baiana não seria apenas uma base regional — seria uma plataforma de exportação sul-americana. O otimismo do então diretor-presidente da empresa César Buffara era explícito: “Somos a empresa que oferece o melhor acabamento de produto e a melhor relação custo e benefício”, declarou ele à época.
Obstáculos
O projeto, porém, começou a perder força antes de completar meia década. O primeiro sinal de que algo mudava na estratégia da empresa veio em 2006, quando a Britânia encerrou a fábrica em São José dos Pinhais (PR), na região metropolitana de Curitiba, e passou a terceirizar boa parte de sua linha de produtos com fornecedores da China.
Conforme registrou a Gazeta do Povo em setembro de 2008, “nos últimos anos, grande parte dos produtos que levavam sua marca eram importados da China”. Com o fechamento da planta paranaense, Camaçari tornou-se a única fábrica própria da empresa no Brasil, mas, paradoxalmente, esse protagonismo veio acompanhado de uma dependência crescente de insumos importados, especialmente motores. A unidade baiana fabricava corpos, gabinetes e montava peças, mas o coração dos aparelhos vinha de fora.
Foi exatamente essa dependência que transformou a crise financeira global de 2008 em um golpe fatal. Com a quebra do Lehman Brothers em setembro daquele ano e a disparada do dólar nos meses seguintes, o custo dos motores importados subiu vertiginosamente. Segundo o consultor Márcio Pires, que falou em nome da empresa ao portal Bahia Notícias em fevereiro de 2009, o fim da operação em Camaçari estava diretamente relacionado à crise financeira mundial e à supervalorização do dólar, já que a Britânia importava todos os motores de seus produtos. Não era apenas uma queda nas vendas — era uma equação que não fechava mais.
O fechamento
O anúncio do fechamento, em 26 de fevereiro de 2009, pegou todos de surpresa. O encerramento das atividades em Camaçari deixou 370 trabalhadores desempregados. A Prefeitura não havia sido comunicada oficialmente. O assessor especial de Assuntos Estratégicos do município, Djalma Machado, teve que correr para uma reunião emergencial com a empresa para tentar salvar os empregos e esclarecer o destino do terreno público. Houve até uma polêmica política: a Prefeitura queria saber se poderia retomar a área cedida. A empresa foi categórica, em tom áspero, segundo o Bahia Notícias: “A área foi comprada antes de 2002. A Britânia tem certidão registrada em cartório. Portanto, essa história não passa de espuma política e conversa para satisfazer sindicalistas.”
Nos bastidores, a versão dos trabalhadores era diferente da narrativa oficial. Tarturana, operário da Britânia e membro da Cipa, denunciou ao jornal do PSTU que durante as férias coletivas decretadas em 10 de fevereiro, a empresa havia transferido a produção na surdina para Joinville, em Santa Catarina, onde iria terceirizar toda a linha.
“A Britânia não faliu, eles não pararam de produzir”, afirmou o trabalhador. A empresa, de fato, havia concluído um centro de distribuição de 36 mil metros quadrados em Joinville no final de 2008 e migrou para lá todo o estoque e a operação logística. Desde então, concentrou sua produção nacional apenas na unidade de Joinville, enquanto ampliava a importação de produtos prontos da China.
A Britânia sobreviveu ao fechamento de Camaçari e até cresceu nos anos seguintes. Em 2007 havia licenciado a marca Philco por dez anos e expandiu seu portfólio. Mas o capítulo baiano ficou marcado por um ciclo que diz muito sobre os desafios estruturais da indústria nacional: incentivos fiscais generosos que atraem, mas não necessariamente retêm; modelos de negócio com dependência de insumos importados que ficam vulneráveis à volatilidade cambial; e a lógica de concentração logística que, ao fim, acabou justificando a migração para o Sul.
A unidade de Camaçari era responsável pela produção de 1,2 milhão de eletrodomésticos por ano, principalmente ventiladores – um número que deixou saudade na economia local. Em seis anos de operação, a Britânia Nordeste havia se tornado parte da paisagem industrial de Camaçari. Depois, virou memória.
Fontes utilizadas no texto
- Gazeta Mercantil (14/07/2003)
- Gazeta Mercantil (04/11/2003)
- Prefeitura de Camaçari (26/02/2009)
- Folha de S.Paulo / Agência Folha (27/02/2009)
- Valor Econômico (27/02/2009)
- Bahia Notícias (28/02/2009)
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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