A operação da Goldwind em Camaçari começa a ganhar escala e relevância estratégica no setor de energia renovável no Brasil. Dois anos após a inauguração da sua primeira fábrica fora da China, a companhia já articula um cluster industrial completo de aerogeradores na Bahia, amplia sua cadeia de fornecedores e projeta o país como plataforma de exportação para mercados internacionais.
Com investimento estimado em cerca de R$100 milhões, a unidade tem capacidade para produzir até 150 turbinas por ano, com potência entre 5,3 MW e 7,5 MW, acima da média nacional. A fábrica gera cerca de 100 empregos diretos, mas o impacto se estende para toda a cadeia, com mais de 2 mil postos de trabalho indiretos ligados às operações da empresa no Brasil.
Segundo o vice-presidente da Goldwind no Brasil, Roberto Veiga, a estratégia vai além da produção local. A empresa tem atuado para estruturar um ecossistema completo na Bahia. “Conseguimos montar um cluster onde você tem a fabricação dos principais componentes do aerogerador: pás, torres e nacele. É o primeiro estado no Brasil com essa integração”, afirmou o executivo, que participou na semana passado do iBEM 2026.
A chegada da Sinoma, fabricante de pás eólicas, reforça esse movimento e reduz a dependência de importações, um dos principais gargalos logísticos da indústria. Atualmente, 87 empresas da região já prestam serviços para a operação, evidenciando o efeito multiplicador da indústria eólica sobre a economia local.
Produção, contratos e mercado desafiador
Mesmo com um cenário desafiador para o setor, a Goldwind optou por uma estratégia agressiva: instalar a fábrica sem contratos firmados. “Implementamos a fábrica sem ter nenhum contrato assinado. Hoje já fabricamos para dois projetos e devemos anunciar um novo contrato em breve”, diz Veiga.
Entre os projetos atendidos, estão empreendimentos no Rio Grande do Norte e na Bahia, incluindo o complexo de Tanque Novo. A expectativa é de novos acordos com players relevantes do setor.
Gargalos estruturais travam expansão
Apesar do avanço industrial, o executivo aponta entraves que limitam o crescimento da energia eólica no Brasil. “O problema não é a guerra. O que interfere é a falta de incentivo e, principalmente, dois pontos: o curtailment (redução ou corte deliberado na produção de energia elétrica, especialmente de fontes renováveis como eólica e solar,ordenado pelo Operador Nacional do Sistema, mesmo quando há capacidade para gerar) e a limitação das linhas de transmissão”, afirma.
O excesso de geração distribuída, especialmente solar, e a insuficiência da infraestrutura de transmissão têm levado ao desperdício de energia no Nordeste – enquanto outras regiões seguem deficitárias.
Nova fronteira: armazenamento de energia
Como resposta a esses desafios, a empresa também avança em inovação. Um dos projetos em desenvolvimento é um sistema de armazenamento de energia (BESS) em Tanque Novo, em parceria com a CGN. A iniciativa está entre as primeiras do tipo no Brasil associadas à geração eólica e pode ser decisiva para reduzir perdas e aumentar a eficiência do sistema.
A escolha da Bahia como base da primeira operação internacional da Goldwind não é casual. A empresa vê o Brasil como peça-chave na sua expansão global. “Queremos que o Brasil seja uma ponte para exportar para América, Europa e África”, destaca Veiga.
Com equipamentos já credenciados no BNDES Finame, a companhia amplia sua competitividade no mercado interno e facilita o acesso ao financiamento para clientes.
Leitura de mercado
A consolidação da Goldwind na Bahia reforça um movimento mais amplo: o Nordeste como hub industrial de energia renovável no Brasil. A combinação de recursos naturais, base industrial e política de financiamento cria condições para avanço do setor.
Ao mesmo tempo, os gargalos de transmissão e regulação seguem como principais riscos para o crescimento. A equação é clara: o Brasil tem energia — , mas ainda precisa garantir infraestrutura para escoá-la.
No caso da Goldwind, o desafio é transformar capacidade instalada em contratos recorrentes e consolidar a operação como plataforma exportadora. Se bem-sucedida, a Bahia pode deixar de ser apenas polo de geração e se tornar também centro global de manufatura eólica.
Leia também: ArcelorMittal inaugura planta solar e consolida complexo híbrido na Bahia

















