A inteligência artificial reduziu em até 36% o consumo de água por quilo de café produzido em 20 propriedades do Espírito Santo que participaram de um projeto-piloto do Nescafé Plan. A tecnologia também diminuiu em cerca de 15% o gasto com energia elétrica nas fazendas, ao limitar o funcionamento das bombas de irrigação ao tempo necessário para atender às plantas.
O projeto recebeu investimento de aproximadamente R$400 mil e foi desenvolvido pela Nestlé em parceria com a Smart Irriga. A experiência foi aplicada em propriedades que já utilizavam irrigação por gotejamento. A novidade foi acrescentar uma camada de inteligência ao sistema, permitindo ajustar diariamente a quantidade de água aplicada às condições de cada área cultivada.
A tecnologia combina estações meteorológicas instaladas nos próprios talhões com uma plataforma de inteligência artificial. O sistema analisa informações como temperatura, chuva, umidade relativa do ar e evapotranspiração para determinar quando irrigar e qual volume de água deve ser utilizado.
Na prática, a proposta é substituir uma irrigação baseada em parâmetros mais gerais por uma decisão orientada por dados. Quando a planta não precisa de água, a bomba permanece desligada. Quando a demanda aumenta, o sistema ajusta a irrigação.
Economia no campo
A redução no consumo de água produz um segundo efeito: menor necessidade de acionamento dos equipamentos de bombeamento. Foi daí que veio a economia de aproximadamente 15% na conta de energia das propriedades participantes.
O ganho também pode aparecer no ciclo produtivo. Segundo a Nestlé, o manejo mais preciso da água favorece uma maturação mais uniforme dos grãos, melhora as condições para a florada e reduz a lixiviação de nutrientes do solo.
O objetivo, portanto, não se limita a economizar água em uma safra. A empresa considera que o controle mais preciso da irrigação pode contribuir para preservar a qualidade do solo e criar condições mais favoráveis para a produtividade nos ciclos seguintes.
“Ao levarmos a tecnologia de inteligência artificial para o manejo da irrigação, promovemos um ganho ambiental e econômico ao mesmo tempo”, afirma Rodolfo Clímaco, gerente de agricultura para Cafés da Nestlé e líder do Nescafé Plan no Brasil.
Segundo o executivo, a tecnologia ajuda a preservar recursos hídricos, reduzir custos e preparar as propriedades para períodos de maior estresse climático.
Tecnologia ganha espaço na produção de café
O projeto faz parte do Nescafé Plan, programa global criado para atuar sobre a cadeia de fornecimento de café diante de desafios como mudanças climáticas, disponibilidade de água e produtividade agrícola.
No Brasil, o programa acompanha mais de 3,8 mil propriedades e oferece assistência técnica aos produtores. A Nestlé informa que 97% das fazendas participantes já adotam alguma técnica de eficiência hídrica.
A irrigação por gotejamento é uma delas. A inteligência artificial entra como uma etapa seguinte, buscando fazer com que a água utilizada pelo sistema seja aplicada no momento e na quantidade mais adequados.
“Quase a totalidade das fazendas do programa já adotam técnicas de eficiência hídrica como a irrigação por gotejamento e o uso de inteligência artificial tem o potencial de agregar precisão ao modelo”, diz Clímaco.
A empresa afirma ainda que as propriedades participantes do programa apresentam, em média, 60% mais produtividade do que fazendas convencionais. O programa também oferece bonificações aos produtores pela adoção de práticas socioambientais.
O desafio é levar o modelo para uma escala maior
O teste realizado no Espírito Santo ainda não significa que a tecnologia será imediatamente aplicada em toda a cadeia. A próxima etapa será avaliar os resultados e a viabilidade de ampliar a solução para outras propriedades.
Esse movimento ganha importância porque a produção de café é particularmente sensível às condições climáticas. Água disponível, temperatura, período de florada e regularidade das chuvas influenciam diretamente o desenvolvimento da lavoura e o rendimento da produção.
A aposta da Nestlé é que tecnologias capazes de transformar dados climáticos em decisões de campo ajudem os produtores a lidar com maior variabilidade do clima sem necessariamente aumentar o consumo de recursos.
O investimento brasileiro faz parte de um programa mais amplo. Globalmente, a Nestlé destinou 1 bilhão de francos suíços ao Nescafé Plan até 2030. Em 2025, segundo o relatório da companhia, 53% do café verde comprado pela marca já veio de propriedades que adotam práticas de agricultura regenerativa.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
O aspecto mais interessante do projeto não está apenas na economia de água. Está na mudança de lógica do manejo agrícola.
Durante muito tempo, eficiência hídrica foi associada principalmente à escolha de equipamentos, como sistemas de gotejamento. O uso de inteligência artificial acrescenta uma segunda variável: a capacidade de decidir com maior precisão quando e quanto irrigar.
Isso pode ser especialmente relevante em regiões onde a disponibilidade de água oscila e os custos de energia têm peso importante na produção. Menos água bombeada significa também menos eletricidade consumida.
O teste ainda é pequeno diante da dimensão da cadeia brasileira de café. Mas os resultados das 20 propriedades oferecem um indicador concreto de onde a tecnologia pode gerar retorno: redução de custos, preservação de recursos e maior controle sobre uma variável que interfere diretamente na produtividade.
A questão agora é de escala. Quanto maior o número de propriedades conectadas ao sistema, maior tende a ser o volume de dados disponível para aperfeiçoar os modelos de decisão. O ganho ambiental deixa, então, de ser apenas uma meta de sustentabilidade e passa a fazer parte da equação econômica da produção.
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