Entre o som do mar e o vento que levanta a areia na Praia de Jardim de Alah, nasceu mais do que uma dupla de vôlei de praia. Nasceu um reencontro. Fernanda voltou para casa. Fabrine permaneceu. E juntas decidiram transformar uma amizade antiga em um projeto de alto rendimento. Hoje, a partir das 12h30, elas representam a Bahia na segunda etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, em João Pessoa. Mas o que sustenta essa presença na elite não começou na arena montada à beira-mar paraibana. Começou em Salvador, em treinos longos sob o sol, na repetição incansável de fundamentos e em uma estrutura que trata desempenho como processo. Por trás da dupla está a técnica Alba Oliveira, peça central desse projeto que une formação, performance e identidade local.
Ex-atleta, formada em Educação Física, em 2008, Alba fez a transição das quadras para a areia aos 18 anos e, anos depois, transformou a própria experiência competitiva em metodologia de trabalho. Seu CT, inaugurado há 12 anos, na Orla da capital baiana, tornou-se ponto de encontro de gerações: da base ao adulto, do atleta de lazer à dupla que hoje disputa espaço no circuito mais exigente do país. É ali que a amizade entre Fernanda e Fabrine ganha forma tática, preparo físico e consistência competitiva.
Como atleta, Alba acumulou conquistas. Como treinadora, ampliou o impacto. Buscou qualificação, incluindo curso de Treinador em Desenvolvimento Esportivo pelo Instituto Olímpico do Brasil. “No finalzinho da transição de carreira atleta-treinadora, fiz cursos para oferecer um trabalho de qualidade. Em 2018 e 2019, estudei a fundo as categorias de base e o adulto no Instituto Olímpico Brasileiro”, conta Alba.
A experiência internacional também fortaleceu o currículo da treinadora. Foram alguns meses de trabalho no Azerbaijão, atuando na preparação física e como auxiliar técnica das equipes masculinas sub-18 e sub-20. Na Suíça, treinou em uma escola da comuna de Amriswil.

O triângulo da elite: técnica, suor e entrosamento
O fruto mais visível desse trabalho, atualmente, atende pelos nomes de Fernanda Melo e Fabrine Santos. A dupla representa a Bahia na elite do vôlei nacional e estreia, hoje, na segunda etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, na arena montada no Busto de Tamandaré, entre as praias de Tambaú e Cabo Branco. O desafio é contra a parceria Manu/Geovania.
Para Fernanda, voltar para a terra natal e treinar no CT Alba Oliveira é uma espécie de “retorno às raízes” após cinco anos treinando fora de Salvador, com passagens pelo Rio de Janeiro e pelo CT do Cangaço, na Paraíba. “Voltei para o CT onde comecei. Feliz por voltar para casa. Fabrine é uma parceira dentro e fora de quadra. O time está muito unido: treinador, preparador físico, academia e apoiadores”, destaca.
O entrosamento, fator crucial na plasticidade e dinâmica do vôlei de praia, é o grande trunfo da dupla. Fabrine Santos, 34 anos, que já conquistou medalhas sob a batuta de Alba no passado, reforça essa conexão: “Sempre treinei aqui e jogava com alguém de fora. Quando a gente treina junto, constrói melhor as jogadas e chega na competição com um conjunto melhor. Esta união nossa traz uma expectativa grande, me sinto pronta para chegar“, avalia a atleta.
A engrenagem por trás do ponto
Ser um atleta de elite no vôlei de praia exige uma rotina que beira o sacrifício. Não se trata apenas de bater na bola, saltar, cortar, defender; é uma ciência que envolve disciplina espartana, sono regulado e uma equipe multidisciplinar. A rotina semanal da dupla do CT Alba Oliveira é um exemplo de gestão profissionaL.
As sessões na areia podem durar até quatro horas, focando em fundamentos como recepção, levantamento e o temido bloqueio, seguidas por treinos de força e musculação. É o preço para suportar o ritmo do Circuito Brasileiro, onde se joga até duas vezes por dia sob sol escaldante.
A rotina semanal da dulpa
| Área de Atuação | Responsável / Equipe |
| Comando técnico | Alba Oliveira e Maicon Pacheco (auxiliar) |
| Força e avaliação | Plus Performance (Marco Patricio e Marcos Barreto) |
| Treino físico | Manoelito Damasceno |
| Fisioterapia | Sport Care |
| Saúde e nutrição | Jonathan Merlo (nutricionista) e Kelly Oliveira (psicóloga) |
| Recuperação | Camila Araújo (massoterapeuta), Daniel Alves (fisio/quiro) e Leidejôse Gonçalves (pilates) |
Formação e qualidade de vida
Apesar do foco no pódio, o CT Alba Oliveira mantém os pés no chão e o coração na comunidade. Atendendo cerca de 65 alunos entre turnos, o espaço acolhe desde crianças de 14 anos, que buscam as primeiras experiências em competições de base, até adultos que buscam o vôlei como lazer e saúde.
“Estou bem satisfeita com o desenvolvimento. Temos turmas de crianças, categorias de base, um grupinho bem legal, e aqueles que treinam apenas por lazer, sem o objetivo de competir”, comenta a treinadora.
O trabalho liderado por Alba mostra que é possível desenvolver atletas de alto rendimento na própria cidade, fortalecendo a base e criando identidade esportiva local. A Bahia, que já ampliou o número de competições e centros de treinamento nos últimos anos, começa, quem sabe, a consolidar um ciclo virtuoso na modalidade.
No fim, o vôlei de praia é feito de duplas. Mas, na areia de Jardim de Alah, ele também é feito de formação, comunidade e propósito. E enquanto a bola sobe contra as melhores do país, a Bahia reafirma que seu espaço na elite não é acaso – é projeto.
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