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Capa Radar da Indústria
Fiol

Fiol 1 já tem 75% das obras concluídas (Foto: Governo da Bahia)

O descarte da Vale vira a aposta bilionária da Mota-Engil na Bahia

Com o suporte de capital chinês e expertise em ferrovias africanas, grupo português entra na fase final de negociação para assumir o "combo" mina-ferrovia-porto e tirar o projeto da Bamin do imobilismo

GERALDO BASTOS por GERALDO BASTOS
25/02/2026
em Radar da Indústria
Tempo de Leitura: 5 minutos
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Radar da Indústria

O  grupo português Mota-Engil está a um passo de selar o que a Vale, em dois anos de namoro, preferiu declinar: o comando da Mina Pedra de Ferro,  em Caetité,  e as concessões da Fiol 1 e do Porto Sul, em Ilhéus.

Para quem vê de fora, pode parecer um ativo “rejeitado”, mas para os lusitanos, que hoje têm a gigante chinesa CCCC (China Communications Construction Company) como principal acionista (32,4%), o negócio é a peça que faltava para consolidar um corredor logístico transcontinental.

O movimento, em fase avançada de due diligence, deve destravar investimentos de R$15 bilhões em solo baiano. Nada mal, não é mesmo?

O perfil da Mota-Engil explica o apetite. Diferente de uma mineradora pura como a Vale, o grupo é um player de infraestrutura pesada com presença global em ambientes complexos.

Trem Maya, no México
Trem Maya, no México

Eles já operam o corredor logístico de Nacala, conectando Moçambique e Malawi, na África, e tocam projetos ferroviários bilionários na Nigéria e México.

No Brasil, a empresa vive um momento de “pé no acelerador”: venceu recentemente o leilão do Túnel Santos-Guarujá (R$ 6,7 bilhões) e reforçou o caixa com resultados recordes em 2025.  Ou seja: fôlego financeiro e know-how em obras de grande porte não são o problema.

Para a Bahia, a chegada dos portugueses é, sob quase todos os ângulos, uma notícia positiva.

O projeto da  minério de ferro da Bamin estava sob o risco de inanição financeira nas mãos do grupo cazaque ERG, que enfrentava dificuldades para avançar com o cronograma.

Ponte Vasco da Gama
Ponte Vasco da Gama, em Portugal

Ao assumir o combo mina-ferrovia-porto, a Mota-Engil retira o projeto do limbo e, de quebra, dá tração ao plano do governo federal de licitar a Fico-Fiol em agosto de 2026.

Se a Fiol 1 finalmente ficar pronta, o potencial de escoamento de grãos do Centro-Oeste pelo litoral baiano deixa de ser uma promessa de palanque para virar realidade operacional.

Resta saber como a empresa portuguesa lidará com o desafio geológico e comercial da mina de Caetité, que a Vale considerou “menos atrativa”. A estratégia da Mota-Engil, porém, parece ser outra: faturar menos na extração e muito mais na eficiência logística, na construção e na operação.

Com o apoio da CCCC e a expertise em concessões rodoviárias e ferroviárias, o grupo português pode ser o “sangue novo” que o setor de infraestrutura do Nordeste precisava para parar de patinar. Pode tirar do limbo um projeto estruturante e reposicionar a Bahia no mapa logístico nacional.

Se confirmar o negócio, a Mota-Engil não apenas assume ativos problemáticos –  assume a responsabilidade de provar que a conta fecha onde outros recuaram.

Destaques do perfil Mota-Engil

  • A empresa foi fundada em 1946 por Manuel António da Mota. Iniciou a sua atividade em Angola, mais tarde com expansão pelo continente africano
  • Ganhou o seu primeiro contrato em Portugal em 1975, realizando entre 1977-1983 uma das obras do século XX em Portugal, a Regularização do Leito do Rio Mondego
  • Nos últimos 15 anos a Mota-Engil definiu África e a América Latina como os focos principais da sua estratégia de internacionalização
  • Atualmente o grupo conta com 55.000 colaboradores presentes em 21 países
  • Acionista estratégico: CCCC (China), garantindo acesso a grandes volumes de capital e tecnologia.
  • Projetos chave: Corredor de Nacala (África), Ferrovia Kano-Maradi (Nigéria/Níger), Túnel Santos-Guarujá (Brasil) e o Trem Maya (México).

R$ 1 bilhão

A Embasa colocou em marcha um pacote de mais de R$ 1 bilhão em obras de ampliação e implantação de sistemas de esgotamento sanitário na Bahia. O alcance é amplo: semiárido, centro-norte, sudoeste, extremo sul, oeste e Região Metropolitana de Salvador. A estimativa é beneficiar mais de 1,2 milhão de pessoas. O movimento combina recursos próprios da companhia com aportes federais, por meio dos programas Saneamento para Todos e Novo PAC

A nova engenharia de crescimento da VCA

A VCA Construtora, fenômeno imobiliário que nasceu em Vitória da Conquista e redesenhou o mapa do setor no interior da Bahia, acaba de dar o passo mais ambicioso de sua trajetória.

Após encerrar 2025 com o impressionante marco de R$ 2 bilhões em VGV lançado, a companhia agora estrutura um movimento de alta engenharia financeira para sustentar sua expansão geográfica pelo Nordeste e Norte do país.

Empreendimento da VCA em Ilhéus
Empreendimento da VCA em Ilhéus

Diferente do modelo tradicional de crescimento orgânico lento, a VCA –  sob a gestão estratégica de Jardel Couto – prepara a captação de R$150 milhões, via fundo imobiliário, para sustentar o maior ciclo de lançamentos de sua história em 2026.

O movimento não é um IPO, mas uma sofisticação de governança: a empresa se transformou em S.A., ainda que sem abertura de capital, e mantém balanços auditados pela KPMG, garantindo o selo de confiança necessário para atrair capital institucional.

O objetivo é claro: garantir liquidez para o pipeline de lançamentos de 2026, que promete ser o maior da história da companhia.

Interiorização com performance de capital

A tese da VCA prova que o interior do Brasil é o “oceano azul” da construção civil. A agilidade comercial da empresa virou benchmark no setor:

  • Liquidez extrema: O empreendimento Kahakai Beach House, em Ilhéus, atingiu o sell-out (100% vendido) em apenas 4 horas.
  • Diversificação: O portfólio vai do social (como a Vila do Servidor, em Vitória da Conquista) ao alto padrão assinado por arquitetos de renome, como Antônio Caramelo (caso do Maunakai Beach Tower, em Ilhéus).
  • Ecossistema digital: A aposta na Rede Axêgu de gestão hoteleira e compartilhamento de diárias mostra que a VCA não vende apenas tijolos, mas ativos de rentabilidade.

Ao consolidar presença em cidades como Juazeiro, Ilhéus, Itabuna, Barreiras, Petrolina (PE) e Caruaru (PE), a VCA deixa de ser uma “potência regional” para se tornar um player de peso no cenário nacional.

Jardel Couto
Jardel Couto comanda a VCA

A estratégia de 2026 revela uma empresa que domina a execução ponta a ponta: da prospecção de terrenos em vetores de crescimento à estruturação de FIIs e crédito privado.

Se a captação se confirmar, a VCA deixa de ser apenas uma construtora regional bem-sucedida e passa a operar em outro patamar –  o de plataforma estruturada de desenvolvimento urbano no Nordeste.

Para o mercado, o recado é direto: o interior não é mais o futuro; é o presente bilionário da indústria imobiliária.


Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.


Leia também: Fratelli Vita: bebidas, cristais e o sabor que marcou uma geração

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