
O grupo português Mota-Engil está a um passo de selar o que a Vale, em dois anos de namoro, preferiu declinar: o comando da Mina Pedra de Ferro, em Caetité, e as concessões da Fiol 1 e do Porto Sul, em Ilhéus.
Para quem vê de fora, pode parecer um ativo “rejeitado”, mas para os lusitanos, que hoje têm a gigante chinesa CCCC (China Communications Construction Company) como principal acionista (32,4%), o negócio é a peça que faltava para consolidar um corredor logístico transcontinental.
O movimento, em fase avançada de due diligence, deve destravar investimentos de R$15 bilhões em solo baiano. Nada mal, não é mesmo?
O perfil da Mota-Engil explica o apetite. Diferente de uma mineradora pura como a Vale, o grupo é um player de infraestrutura pesada com presença global em ambientes complexos.

Eles já operam o corredor logístico de Nacala, conectando Moçambique e Malawi, na África, e tocam projetos ferroviários bilionários na Nigéria e México.
No Brasil, a empresa vive um momento de “pé no acelerador”: venceu recentemente o leilão do Túnel Santos-Guarujá (R$ 6,7 bilhões) e reforçou o caixa com resultados recordes em 2025. Ou seja: fôlego financeiro e know-how em obras de grande porte não são o problema.
Para a Bahia, a chegada dos portugueses é, sob quase todos os ângulos, uma notícia positiva.
O projeto da minério de ferro da Bamin estava sob o risco de inanição financeira nas mãos do grupo cazaque ERG, que enfrentava dificuldades para avançar com o cronograma.

Ao assumir o combo mina-ferrovia-porto, a Mota-Engil retira o projeto do limbo e, de quebra, dá tração ao plano do governo federal de licitar a Fico-Fiol em agosto de 2026.
Se a Fiol 1 finalmente ficar pronta, o potencial de escoamento de grãos do Centro-Oeste pelo litoral baiano deixa de ser uma promessa de palanque para virar realidade operacional.
Resta saber como a empresa portuguesa lidará com o desafio geológico e comercial da mina de Caetité, que a Vale considerou “menos atrativa”. A estratégia da Mota-Engil, porém, parece ser outra: faturar menos na extração e muito mais na eficiência logística, na construção e na operação.
Com o apoio da CCCC e a expertise em concessões rodoviárias e ferroviárias, o grupo português pode ser o “sangue novo” que o setor de infraestrutura do Nordeste precisava para parar de patinar. Pode tirar do limbo um projeto estruturante e reposicionar a Bahia no mapa logístico nacional.
Se confirmar o negócio, a Mota-Engil não apenas assume ativos problemáticos – assume a responsabilidade de provar que a conta fecha onde outros recuaram.
Destaques do perfil Mota-Engil
- A empresa foi fundada em 1946 por Manuel António da Mota. Iniciou a sua atividade em Angola, mais tarde com expansão pelo continente africano
- Ganhou o seu primeiro contrato em Portugal em 1975, realizando entre 1977-1983 uma das obras do século XX em Portugal, a Regularização do Leito do Rio Mondego
- Nos últimos 15 anos a Mota-Engil definiu África e a América Latina como os focos principais da sua estratégia de internacionalização
- Atualmente o grupo conta com 55.000 colaboradores presentes em 21 países
- Acionista estratégico: CCCC (China), garantindo acesso a grandes volumes de capital e tecnologia.
- Projetos chave: Corredor de Nacala (África), Ferrovia Kano-Maradi (Nigéria/Níger), Túnel Santos-Guarujá (Brasil) e o Trem Maya (México).
R$ 1 bilhão
A Embasa colocou em marcha um pacote de mais de R$ 1 bilhão em obras de ampliação e implantação de sistemas de esgotamento sanitário na Bahia. O alcance é amplo: semiárido, centro-norte, sudoeste, extremo sul, oeste e Região Metropolitana de Salvador. A estimativa é beneficiar mais de 1,2 milhão de pessoas. O movimento combina recursos próprios da companhia com aportes federais, por meio dos programas Saneamento para Todos e Novo PAC
A nova engenharia de crescimento da VCA
A VCA Construtora, fenômeno imobiliário que nasceu em Vitória da Conquista e redesenhou o mapa do setor no interior da Bahia, acaba de dar o passo mais ambicioso de sua trajetória.
Após encerrar 2025 com o impressionante marco de R$ 2 bilhões em VGV lançado, a companhia agora estrutura um movimento de alta engenharia financeira para sustentar sua expansão geográfica pelo Nordeste e Norte do país.

Diferente do modelo tradicional de crescimento orgânico lento, a VCA – sob a gestão estratégica de Jardel Couto – prepara a captação de R$150 milhões, via fundo imobiliário, para sustentar o maior ciclo de lançamentos de sua história em 2026.
O movimento não é um IPO, mas uma sofisticação de governança: a empresa se transformou em S.A., ainda que sem abertura de capital, e mantém balanços auditados pela KPMG, garantindo o selo de confiança necessário para atrair capital institucional.
O objetivo é claro: garantir liquidez para o pipeline de lançamentos de 2026, que promete ser o maior da história da companhia.
Interiorização com performance de capital
A tese da VCA prova que o interior do Brasil é o “oceano azul” da construção civil. A agilidade comercial da empresa virou benchmark no setor:
- Liquidez extrema: O empreendimento Kahakai Beach House, em Ilhéus, atingiu o sell-out (100% vendido) em apenas 4 horas.
- Diversificação: O portfólio vai do social (como a Vila do Servidor, em Vitória da Conquista) ao alto padrão assinado por arquitetos de renome, como Antônio Caramelo (caso do Maunakai Beach Tower, em Ilhéus).
- Ecossistema digital: A aposta na Rede Axêgu de gestão hoteleira e compartilhamento de diárias mostra que a VCA não vende apenas tijolos, mas ativos de rentabilidade.
Ao consolidar presença em cidades como Juazeiro, Ilhéus, Itabuna, Barreiras, Petrolina (PE) e Caruaru (PE), a VCA deixa de ser uma “potência regional” para se tornar um player de peso no cenário nacional.

A estratégia de 2026 revela uma empresa que domina a execução ponta a ponta: da prospecção de terrenos em vetores de crescimento à estruturação de FIIs e crédito privado.
Se a captação se confirmar, a VCA deixa de ser apenas uma construtora regional bem-sucedida e passa a operar em outro patamar – o de plataforma estruturada de desenvolvimento urbano no Nordeste.
Para o mercado, o recado é direto: o interior não é mais o futuro; é o presente bilionário da indústria imobiliária.
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