
Q uem caminha hoje pela Rua da Pituba, entre o sotaque de estrangeiros e o aroma do café gourmet, mal consegue imaginar que, há três décadas, Itacaré era um destino quase esquecido. Enquanto as fazendas de cacau ao redor entravam em colapso devido à praga da vassoura-de-bruxa, a cidade via sua base econômica desmoronar. O que salvou Itacaré não foi uma nova cultura agrícola, mas a sua própria geografia: as ondas perfeitas e o encontro da Mata Atlântica com o mar transformaram a crise do cacau na gênese de um dos maiores polos de turismo de experiência do Brasil.
Mas não se engane pelo clima “paz e amor”. Por trás do estilo despojado, Itacaré opera uma engrenagem econômica complexa, onde o luxo e a preservação ambiental travam um diálogo constante com a infraestrutura urbana.
O diferencial competitivo de Itacaré é o seu isolamento verde. Cercada por Áreas de Proteção Ambiental (APAs), a cidade possui uma “barreira de entrada” natural: para construir aqui, as regras são rígidas e o custo ambiental é alto. Isso atraiu um perfil de investimento específico: o turismo de alto padrão e baixa densidade.
O resultado é uma valorização que se sente na ponta, mas que, curiosamente, ainda mantém um equilíbrio atrativo. A cirurgiã-dentista Giulia Bastos e o administrador Aidan Trindade escolheram o destino para este Carnaval e voltaram com impressões que resumem bem esse cenário.
Eles alertam para a logística: a viagem de Bom Despacho até Itacaré leva cerca de 4h30, e o trecho da BA-001 exige atenção redobrada. “Sentimos falta de uma sinalização melhor, especialmente nos trechos com quebra-molas e curvas acentuadas, que carecem de informações para quem dirige”, pontua Aidan. É o lado invisível do turismo: a infraestrutura rodoviária que nem sempre acompanha o brilho do destino final.

Gastronomia e segurança: os ativos de retenção
Uma vez dentro da vila, a percepção muda. Onde muitos destinos de luxo pecam pelo preço abusivo, Itacaré entrega competitividade. “A variedade gastronômica é imensa e para todos os gostos. O que nos surpreendeu positivamente foram os preços acessíveis, como rodízios de pizzas e massas por R$ 70”, destaca Giulia.
Além do bolso, outro ativo econômico invisível é a sensação de segurança. Mesmo com a cidade lotada neste Carnaval, o casal ressaltou o policiamento ostensivo e a tranquilidade para circular, fator que hoje define se um turista retorna ou risca o lugar do mapa.
“Ficamos encantados com as trilhas e as praias incríveis, como Hawaizinho, Engenhoca, Prainha e Jeribucaçu. As caminhadas para as cachoeiras revelam uma natureza realmente exuberante e muito bem cuidada”, relatam Aidan e Giulia.

Por que isso funciona?
Itacaré “dá certo” porque conseguiu vender o que o mundo moderno mais deseja: autenticidade. O fato de ainda existirem praias intocadas, acessíveis apenas por trilhas, é o que garante que o destino continue sendo desejado por quem tem alto poder aquisitivo. É a economia do “menos é mais”. A cidade não quer ser uma nova metrópole à beira-mar; ela quer ser o refúgio da metrópole.
E uma dica: o segredo para o investidor e para o viajante está no calendário. Embora o Carnaval tenha mostrado a força da cidade cheia, a dica de ouro de quem vive o “Lado B” é o pós-festa. Meses como março e abril surgem como a janela perfeita: o sol permanece, as opções de hospedagem são vastas e os preços ficam ainda mais em conta.
O que o leitor leva dessa história
Itacaré é o maior exemplo de resiliência econômica da Bahia. Mostra que o turismo pode ser a tábua de salvação após o fim de um ciclo industrial ou agrícola (como foi o cacau), desde que haja planejamento para não destruir o ativo que gera o lucro. Como notaram Giulia e Aidan, quando a natureza preservada encontra uma gestão de serviços (e preços) equilibrada, o destino deixa de ser apenas uma visita e passa a ser um lugar para onde se quer sempre retornar.
O desafio do futuro é garantir que a riqueza gerada nos hotéis de luxo atravesse a ponte e se transforme em saneamento e qualidade de vida para a comunidade local.

Itacaré em números e fatos
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- Herança do cacau: Muitas das antigas fazendas hoje são santuários ecológicos ou hotéis de charme.
- Ticket médio: Um dos mais altos do litoral sul da Bahia, impulsionado pelo turismo internacional e de surf de alto padrão.
- Logística: Dependência total do Aeroporto de Ilhéus (70km) e da BA-001, o que torna a manutenção da estrada vital para o negócio.
- Sustentabilidade: O destino é um dos pioneiros na Bahia em programas de gestão de resíduos focados no turismo (Lixo Zero).
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O lado B dos destinos também se constrói com quem vive – e sente – o lugar.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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