Após a morte de Constantino de Oliveira Júnior, a Gol buscou reduzir ruídos ao mercado ao afirmar que não haverá mudanças na estratégia nem na condução das operações, com transição prevista no comando do Conselho de Administração. Segundo a empresa, a condução dos negócios segue sob responsabilidade da diretoria executiva e dos membros do Conselho de Administração. A presidência do colegiado passa a ser exercida, de forma interina, por Antonio Kandir, atual vice-presidente do Conselho e integrante da governança da companhia há cerca de duas décadas.
A companhia destacou que a transição ocorre dentro dos protocolos previstos, preservando a estabilidade da gestão em um momento sensível para o setor aéreo e para a própria Gol, que atravessa um ciclo de reorganização financeira e estratégica.
Fundada em 2001, a Gol foi idealizada por Constantino Júnior e pela família Constantino com uma proposta que transformou o mercado aéreo brasileiro: democratizar o transporte aéreo por meio de um modelo de baixo custo, até então pouco explorado no país. Sob sua liderança, a empresa consolidou-se como uma das maiores companhias do Brasil, tornou-se referência em eficiência operacional e passou a integrar um grupo internacional de aviação.
Ao longo de 25 anos de atuação, Constantino Júnior esteve à frente de decisões estratégicas que moldaram a cultura corporativa da Gol , marcada por disciplina financeira, padronização de frota, foco em governança e criação de valor no longo prazo. Seu perfil era descrito por colaboradores e parceiros como o de um líder de visão estratégica, mas de trato simples, próximo e humano.
O que muda. E o que não muda
O que aconteceu
A morte de Constantino Júnior encerra um ciclo simbólico na aviação brasileira. Ele não era apenas o fundador da Gol , mas também uma das figuras centrais da consolidação do modelo de baixo custo no país e um dos principais articuladores da estratégia de longo prazo da companhia.
Por que isso importa
Embora a Gol afirme que operações e estratégia seguem inalteradas, mudanças no comando do Conselho de Administração sempre merecem atenção do mercado. O Conselho é o guardião da visão estratégica, da governança e das grandes decisões – especialmente em um setor altamente regulado, capital-intensivo e exposto a volatilidades como o aéreo.
A escolha de Antonio Kandir como presidente interino sinaliza continuidade, não ruptura. Kandir é um nome conhecido do mercado, com histórico na administração pública e longa convivência com a estrutura decisória da Gol , o que reduz riscos de descontinuidade estratégica no curto prazo.
O que observar daqui para frente
Governança e sucessão: o mercado deve acompanhar se a presidência interina se tornará definitiva ou se haverá uma reconfiguração mais ampla no Conselho.
Execução da estratégia: mais do que discursos, será fundamental observar se a companhia mantém disciplina operacional, foco em eficiência e cumprimento de seus compromissos financeiros.
Ambiente setorial: a Gol opera em um cenário ainda desafiador para a aviação, com pressão de custos, câmbio e juros. A solidez da governança será decisiva para atravessar esse contexto.
Mensagem aos investidores: ao reforçar estabilidade e continuidade, a companhia busca reduzir ruídos e preservar confiança – um ativo crítico neste momento.

Quem é Antonio Kandir
Economista, Antonio Kandir tem trajetória marcada pela atuação na formulação de políticas públicas, na condução de processos de privatização e na análise econômica de longo prazo. Ex-deputado federal pelo PSDB, integrou a equipe econômica do governo federal no início dos anos 1990, participando do grupo que estruturou o Plano Collor, ao lado da então ministra Zélia Cardoso de Mello e do ex-presidente do Banco Central, Ibrahim Eris.
Em 1995, licenciou-se do mandato parlamentar para assumir o Ministério do Planejamento no governo Fernando Henrique Cardoso, cargo que ocupou entre 1996 e 1998, em substituição a José Serra. No período, teve papel relevante na condução da agenda de reformas e na coordenação de políticas macroeconômicas.
Kandir também presidiu o Conselho Nacional de Desestatização, foi governador brasileiro no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e presidiu o Ipea, consolidando sua atuação na interface entre Estado, mercado e planejamento estratégico.
No setor privado, atuou como diretor nas áreas de Private Equity e Hedge Funds, é diretor da Kandir e Associados, empresa de consultoria econômica, e foi coordenador de estudos da Itaú Planejamento e Engenharia. Na área acadêmica, lecionou na Unicamp, na PUC-SP e atuou como Assistant Faculty Fellow na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.
Leitura final
A morte de Constantino Júnior tem forte peso simbólico, mas não altera, ao menos por ora, o rumo da Gol. A companhia aposta na continuidade de sua governança e na força de uma estrutura já testada para atravessar a transição. Para o mercado, o recado é claro: a empresa segue operando, e o jogo agora é acompanhar como essa herança estratégica será executada sem seu principal arquiteto.
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