A aprovação do acordo Mercosul–União Europeia pelo bloco europeu reacende expectativas – e debates – dentro da indústria química brasileira. Para a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o tratado representa um marco estratégico em um momento especialmente delicado para o setor, pressionado pela concorrência internacional, sobretudo de produtos importados da China, e por desafios estruturais de competitividade no mercado doméstico.
Na avaliação da entidade, o acordo amplia o acesso a um dos maiores e mais exigentes mercados consumidores do mundo, cria um ambiente mais previsível para investimentos e abre espaço para uma agenda industrial baseada em inovação, sustentabilidade e maior valor agregado.
“O acordo representa uma oportunidade concreta de reposicionar a indústria química brasileira em cadeias globais de maior valor agregado. Ele amplia o acesso a mercados, incentiva o intercâmbio tecnológico e cria um ambiente mais previsível e moderno para investimentos, especialmente em áreas como bioeconomia, química de base renovável e energia limpa”, afirma André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim.
Segundo ele, o tratado vai além da redução tarifária e toca em pontos sensíveis para o futuro do setor.
“Ao incorporar temas como sustentabilidade, propriedade intelectual e comércio leal, o acordo reforça práticas responsáveis e aproxima a indústria química brasileira das exigências do mercado europeu, o que é fundamental para a competitividade de longo prazo”, destaca.
Perda de mercado
Esse movimento ocorre em um contexto no qual a indústria química nacional enfrenta perda de mercado interno para importações asiáticas, especialmente da China, muitas vezes beneficiadas por subsídios, excesso de capacidade produtiva e custos mais baixos. Para a Abiquim, ampliar o acesso ao mercado europeu pode funcionar como um contrapeso estratégico, ajudando o setor a diversificar destinos, reduzir dependências e estimular investimentos produtivos no Brasil.
“É um passo relevante para gerar empregos qualificados, estimular investimentos produtivos e contribuir para o crescimento econômico do país”, completa Passos Cordeiro.
Para a indústria química, o acordo não é uma solução mágica, mas surge como uma janela estratégica em um cenário global cada vez mais competitivo – e desigual. O desafio agora será transformar acesso em competitividade real
Aval político e o longo caminho até a vigência
Na sexta-feira (9), os países da União Europeia deram o aval político ao acordo de livre comércio com o Mercosul, considerado o maior do mundo nesse formato, ao reunir um mercado potencial de cerca de 718 milhões de consumidores. Apesar da resistência de países como França e Itália, os Estados-membros autorizaram a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a formalizar a assinatura do tratado.
A assinatura está prevista para a próxima segunda-feira (12), em Assunção, no Paraguai. As negociações, iniciadas em 1999, ganharam novo impulso em 2024, com protagonismo de países como Brasil, Espanha e Alemanha. No caso italiano, o apoio esteve condicionado a negociações paralelas envolvendo subsídios agrícolas e ajustes na aplicação da taxa de carbono sobre fertilizantes importados.
Mesmo com o avanço político, os efeitos práticos do acordo ainda dependem dos processos de ratificação interna. O texto permite que o tratado entre em vigor de forma bilateral, ou seja, entre a União Europeia e cada país do Mercosul que concluir seus trâmites parlamentares.
Acordo Mercosul–UE: os principais pontos
- Maior zona de livre comércio do mundo – Integra dois grandes blocos econômicos, com cerca de 718 milhões de pessoas e PIB combinado próximo de US$22 trilhões.
- Redução gradual de tarifas – Liberalização de aproximadamente 91% dos bens e 85% do valor das importações brasileiras vindas da UE; do lado europeu, 95% dos bens e 92% do valor importado do Brasil.
- Prazos escalonados e salvaguardas – A abertura comercial respeita sensibilidades setoriais, com períodos de transição mais longos para segmentos considerados estratégicos.
- Capítulos modernos – O acordo inclui regras sobre sustentabilidade, compras governamentais, propriedade intelectual, comércio digital e novas tecnologias.
- Impacto econômico esperado – Estudos do MDIC indicam que, no longo prazo, o acordo pode elevar o PIB brasileiro em 0,34%, além de estimular investimentos, exportações, salários reais e reduzir preços ao consumidor.
- Para mais detalhes sobre o fluxo comercial do setor, incluindo os principais produtos químicos exportados e importados entre Brasil e União Europeia, acesse o Relatório Estatístico Brasil–União Europeia – Produtos Químicos – Comparativo – Janeiro a Dezembro de 2024–2025.
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