A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a Selic em 15% ao ano, pela quarta vez consecutiva, confirma o tom de cautela do Banco Central mesmo em um ambiente de inflação em queda e economia já esfriando. O comunicado repete a postura das últimas reuniões: manter os juros elevados por um “período prolongado” e evitar qualquer sinal de início do ciclo de cortes.
Os argumentos do BC são conhecidos – incertezas persistentes e necessidade de assegurar a convergência da inflação para a meta contínua, hoje em 3% com banda de 1,5 ponto percentual. De fato, o IPCA de novembro avançou apenas 0,18%, levando a inflação em 12 meses para 4,46%, novamente dentro do intervalo de tolerância. Ainda assim, o comitê optou por não alterar a taxa, que segue no maior patamar desde 2006.
Mas, do lado real da economia, a leitura é outra. E ela vem carregada de preocupação. Tanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) quanto a Federação das Indústrias do Estado da Bahia(Fieb) apontam que o atual nível de juros ignora sinais claros de desaceleração: PIB praticamente estagnado (+0,1% no terceiro trimestre), produção industrial crescendo apenas 0,8% no ano e concessões de crédito perdendo força. Para as entidades, a Selic de 15% não é só um freio; é um bloqueio ao investimento, à competitividade e à capacidade de reação da economia.
A CNI destaca que os juros reais seguem entre os mais altos do mundo – estimados em 10,5% ao ano para 2025 – e muito acima da taxa considerada neutra. Na prática, significa uma política monetária excessivamente restritiva que encarece o crédito, reduz investimentos e fragiliza a indústria. A entidade lembra, ainda, que a política atual aumenta o custo da dívida pública e defende o uso de outros instrumentos, como ajustes nos compulsórios, para controlar a inflação sem penalizar tanto a produção.
“A manutenção dos juros nesse patamar tão elevado é excessiva e prejudicial, uma vez que intensifica a perda de ritmo da atividade econômica, encarece muito o crédito, inibe o investimento e penaliza a competitividade da indústria”, afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Segundo ele, o próprio Copom reconhece que os efeitos dos juros elevados ainda não se materializaram por completo, “havendo espaço para uma mudança gradual na política monetária sem comprometer a convergência da inflação para a meta”.
Fieb
A Fieb é ainda mais contundente: classifica a decisão como equivocada e desconectada da realidade, especialmente em um momento de inflação controlada e dificuldades crescentes do setor industrial. A entidade ressalta o descompasso frente ao cenário internacional, em que economias avançadas – como Estados Unidos e Europa – estão reduzindo ou mantendo juros baixos para sustentar a recuperação. Nesse contexto, estados de perfil industrial e exportador, como a Bahia, acabam sofrendo impactos mais severos.
“Manter a Selic em 15% não é apenas um erro conjuntural: constitui uma escolha que penaliza o trabalho, asfixia o setor produtivo e obstaculiza o desenvolvimento do País. A Fieb alerta que essa taxa de juros elevadíssima representa um dos principais entraves ao crescimento sustentável e conclama o Banco Central a uma imediata revisão de rumo. É imperativo e inadiável o início de um ciclo consistente de redução da taxa Selic. O Brasil não pode mais conviver com uma política monetária que sacrifica o presente e compromete o futuro da nação”, disse a entidade e, nota.
No fundo, o debate é sobre o custo de manter a economia em marcha lenta. Juros altos ajudam a conter a inflação, mas, quando permanecem elevados por muito tempo, travam o investimento, encarecem o crédito, esfriam o mercado de trabalho e reduzem o dinamismo industrial — justamente o setor que mais responde por emprego, inovação e exportações.
Ao optar por segurar a Selic a 15%, o BC preserva sua estratégia de cautela, mas reforça a sensação de que a política monetária pode estar fora de sintonia com a etapa atual do ciclo econômico. Para a indústria, o preço dessa escolha já é palpável. Para o país, ele pode ser ainda maior: menos crescimento hoje e mais dificuldades para avançar amanhã.
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