Iarodi D. Bezerra*
Meus avós, Antão e Maria, me ensinaram a dizer adeus. A lembrança deles, parados à porta, chorando enquanto seguíamos rumo à estrada, era uma dor que, mesmo para mim — ainda criança —, incomodava por boa parte da viagem.
Acredito que não fomos preparados para tirar as mãos dos bolsos e entendê-las acenando um adeus. Primeiro, porque se despedir é desconfortável — uma sensação estranha de que algo está faltando… E, na verdade, o adeus é justamente a falta se revelando.
Há uma dificuldade em lidar com o adeus. Seu aceno machuca e pode judiar por algum tempo. Ele corta com uma lâmina afiada — mas tão afiada que se dissolve em meio à dor
Vó Maria, como boa professora que era, me deu a lição mais dolorosa — quando ela partiu —, de um adeus. Um mês depois, meu avô Antão a seguiu (estava com saudades). Foi uma experiência estranha: não eram mais eles que estavam parados, olhando nossa partida e dando adeus; éramos nós!
A partida deles me fez entender como se sentiam após todos irem embora. Eles voltavam para dentro de casa, tocando o vazio e o silêncio com as mãos. Tinham, porém, uma vantagem: sabiam que retornaríamos na próxima temporada.
Enquanto nós… não havia essa expectativa. Ficamos com um vazio com o qual não soubemos lidar — a ponto de darmos adeus aos nossos alegres natais.
Infelizmente, o fenômeno do adeus também traz consigo outras formas de adeuses. Faz parte!
Há uma dificuldade em lidar com o adeus. Seu aceno machuca e pode judiar por algum tempo. Ele corta com uma lâmina afiada — mas tão afiada que se dissolve em meio à dor. E o que dizer do engasgo com as lembranças? Elas sufocam — desde a alma até os pulmões.
O adeus aos meus avós nos convidou a encontrar e vivenciar a saudade, rompendo o ciclo do desconforto inicial.
Sim, o adeus é o limite que nos conduz pela estrada que leva à saudade — onde experimentamos novas sensações originadas de velhas memórias.
Sabe, meu caro leitor, entendo que todo encontro é também despedida — como bem diz a canção “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento.
Por isso, precisamos ter consciência de que levamos conosco, no bolso costurado em nosso coração, a possibilidade do aceno de adeus — para que o utilizemos, estejamos prontos ou não.
- Iarodi D. Bezerra é Psicoterapeuta. Atua no atendimento infanto-juvenil e de adultos. Facilitador de grupos de psicoterapia.
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Uma reflexão excelente e que faz parte de nossas vidas, e mesmo assim tem muitas pessoas que não aproveitaram os momentos com os entes queridos. Infelizmente quando partem nos damos conta que perdemos tempo.
Parabéns Dr. Iarondi!