No coração do Extremo Sul da Bahia, uma fábrica opera 24 horas por dia transformando madeira em celulose com um diferencial: ela mesma gera toda a energia de que precisa e ainda compartilha o excedente com a rede elétrica nacional, o suficiente para abastecer até 350 mil pessoas. E mais: de cada tonelada de celulose produzida, menos de 700 gramas viram resíduo sólido. O restante, mais de 99%, é reaproveitado em processos próprios ou repassado para uso agrícola, como corretivo de solo.
Essa é a realidade da Veracel Celulose, cuja planta industrial, localizada em Eunápolis, é referência em eficiência energética e sustentabilidade. Desde o início das operações, em 2005, a unidade é autossuficiente em energia, utilizando fontes renováveis como biomassa e energia solar. O chamado “licor preto”, um subproduto do cozimento da madeira, junto com cascas, sobras do eucalipto, caroço de açaí e até bagaço de cana compõem a matriz energética limpa da empresa.
“Uma fábrica como essa pode gerar até 50 quilos de resíduos por tonelada de celulose produzida. Nós geramos menos de 700 gramas. Mais de 99% dos nossos resíduos sólidos são reaproveitados”, afirma o diretor industrial Fabrício Stange, que assumiu o cargo há pouco mais de três meses, mas já acumula 25 anos de experiência no setor.
A Veracel também realiza, a cada 18 meses, uma parada geral de manutenção. Um momento estratégico para revisar, ajustar e garantir a longevidade dos equipamentos. A próxima está marcada para janeiro e deve durar cerca de 10 dias. “É quando realizamos inspeções e ajustes técnicos. Boa parte dos serviços contratados é feita junto a fornecedores da região, o que fortalece a economia local”, destaca Stange. Só na parada, são gerados aproximadamente 2.500 empregos temporários, movimentando setores como hotelaria, alimentação e comércio.
A jornada da madeira até virar celulose
Apesar da alta tecnologia, o protagonista da produção é, essencialmente, a árvore. “Quem produz a celulose é a árvore. Nosso principal papel é escolher o melhor clone de eucalipto que gere a fibra de forma mais eficiente”, explica o diretor.
A fábrica recebe as toras e as transforma em pequenos pedaços chamados cavacos. Esse material é submetido a um processo de cozimento que separa a celulose da lignina (substância que dá rigidez à madeira). A fibra de celulose, então, passa por um processo de branqueamento, secagem e enfardamento, antes de ser enviada aos clientes.
A planta baiana tem capacidade para produzir 1,1 milhão de toneladas de celulose por ano. O material é destinado, principalmente, para a produção de papéis e de tissue, usados no dia a dia em produtos como guardanapos, papel higiênico e lenços.
A celulose é o principal componente da parede celular das plantas. Constitui uma importante matéria-prima para as indústrias, que a extraem a partir de diversos vegetais. A principal fonte de celulose é o lenho das árvores de eucalipto e pinus, abundante na natureza. A substância é utilizada como matéria-prima em muitos produtos
- Durante uma semana, o jornalista Geraldo Bastos, editor do IndústriaNews, percorreu mais de 1.600 quilômetros entre a Bahia e o Espírito Santo para conhecer de perto duas gigantes do setor florestal brasileiro: Veracel e Suzano. A viagem incluiu visitas às unidades industriais de Eunápolis e Mucuri, onde foi possível acompanhar o processo produtivo da celulose e do papel, além de entender como essas empresas têm investido em sustentabilidade, inovação e impacto social. O jornalista também conversou com os principais executivos das companhias, que compartilharam visões sobre o presente e o futuro do setor. Ao longo dos próximos dias, o IndústriaNews irá publicar uma série especial de reportagens revelando os bastidores dessa imersão no setor florestal, mostrando os impactos, os avanços e as contradições que movem uma das cadeias mais estratégicas da economia baiana.
- O jornalista Geraldo Bastos visitou as unidades da Veracel e da Suzano, no Extremo Sul da Bahia, a convite da Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf)
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