
A Natura surpreendeu o mercado nesta quarta-feira ao divulgar, em caráter excepcional, uma prévia de seus resultados financeiros do segundo trimestre de 2026. A fabricante de cosméticos estima receita líquida consolidada entre R$5,1 bilhões e R$5,2 bilhões, o que representa uma retração entre 9% e 10% na comparação com igual período do ano passado, reflexo de uma combinação de fatores operacionais e de um ambiente de consumo mais fraco no Brasil. Só lembrando: a empresa teve prejuízo líquido de R$445 milhões no primeiro trimestre, alta de 787,6% em relação ao mesmo período de 2025.
A divulgação antecipada do desempenho ocorre antes da apresentação oficial do balanço, prevista para 10 de agosto, e busca garantir transparência ao mercado diante da evolução das informações financeiras durante o processo de fechamento do trimestre.
Segundo a companhia, a queda das vendas foi provocada por uma sucessão de eventos que afetaram principalmente a operação brasileira. O principal deles foi a escassez de produtos causada pela implantação de um novo sistema de Planejamento Integrado, pela atualização do sistema SAP e pela redistribuição da produção após o fechamento da fábrica de Interlagos.
Esse conjunto de mudanças reduziu a disponibilidade de produtos justamente em um momento em que o consumo doméstico já apresentava sinais de enfraquecimento. Como consequência, houve perda de volume no canal de venda direta – principal modelo comercial da Natura – com redução tanto da atividade quanto da produtividade das consultoras.
Ajustes estratégicos
A empresa também reconheceu impactos decorrentes de ajustes estratégicos em seus canais de comercialização. A adoção de novas políticas de preços e regras comerciais provocou uma desaceleração temporária das vendas online, enquanto a migração dos contratos das franquias para um novo modelo baseado nas vendas ao consumidor final reduziu os estoques das lojas e diminuiu as vendas para a rede franqueada durante o período.
Outro fator que pressionou o desempenho foi um descasamento temporário na cobrança de tributos relacionado a mudanças nas regras do ICMS-ST no Estado de São Paulo, com efeito concentrado no segundo trimestre.
Apesar da retração na receita, a Natura afirma que a rentabilidade deverá apresentar melhora em relação ao trimestre anterior. A expectativa é de expansão da margem Ebitda reportada, sustentada pela redução das despesas com desligamentos e pelos ganhos de eficiência obtidos com o novo modelo operacional, amenizando parte dos efeitos da menor diluição dos custos fixos.
Enquanto o mercado brasileiro enfrentou dificuldades, as operações da companhia nos países hispânicos mantiveram trajetória positiva. Segundo a Natura, todas as unidades da região registraram crescimento anual em moeda constante, mas esse avanço não foi suficiente para compensar a queda das vendas no Brasil.
Para tentar recuperar o ritmo de crescimento, a administração informou que está acelerando uma série de medidas. Entre elas estão a reorganização da cadeia de abastecimento, novos incentivos para a força de vendas, campanhas mais regionalizadas, expansão da presença em marketplaces, fortalecimento da plataforma digital “Minha Loja” e retomada da abertura de franquias dentro do novo modelo contratual.
A companhia ressalta que os números divulgados são preliminares, ainda não auditados e sujeitos a revisão até a publicação oficial das demonstrações financeiras.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
Mais do que um trimestre fraco, a prévia divulgada pela Natura evidencia os riscos de processos complexos de transformação operacional. A modernização dos sistemas, a reorganização da produção e a revisão dos canais de vendas fazem parte de uma estratégia para aumentar a eficiência da companhia no longo prazo, mas produziram efeitos relevantes sobre a disponibilidade de produtos e, consequentemente, sobre a receita no curto prazo.
O cenário macroeconômico contribuiu para ampliar essas dificuldades. Em um ambiente de consumo mais moderado, rupturas no abastecimento tendem a provocar perdas de vendas mais difíceis de recuperar, especialmente em um modelo de negócios baseado na recorrência das consultoras e na fidelização dos consumidores.
Por outro lado, a expectativa de melhora da margem operacional indica que os ganhos de eficiência começam a aparecer, ainda que insuficientes para neutralizar a queda do faturamento neste momento.
O QUE FICA DESSA HISTÓRIA
A prévia da Natura mostra que os desafios da indústria de bens de consumo vão além da demanda. Em um ambiente econômico mais cauteloso, mudanças internas de grande porte, como implantação de sistemas, reorganização fabril e revisão dos canais de distribuição, precisam ser executadas com elevada precisão. Caso contrário, problemas operacionais rapidamente se transformam em perda de receita, mesmo em empresas consolidadas e líderes de mercado.
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