A Bahia vai sediar a maior e mais tecnológica fábrica de placas de gesso da América Latina. A Placo, marca do grupo francês Saint-Gobain, anunciou um investimento de dezenas de milhões de euros para ampliar sua unidade em Feira de Santana, com a construção de uma nova linha de produção de placa de gesso. A expansão deve elevar a capacidade produtiva da planta em 75%, com início das operações previsto para o começo de 2028.
O investimento não é um movimento isolado. É uma aposta direta no potencial ainda pouco explorado do mercado brasileiro de drywall. O consumo per capita do material no país dobrou desde 2020, mas segue em patamar modesto: 0,7 m² por habitante ao ano, ante um consumo quatro vezes maior no Chile e dez vezes maior nos Estados Unidos. Na leitura da Saint-Gobain, essa distância entre o Brasil e mercados mais maduros é justamente o espaço de crescimento que justifica o aporte bilionário em euros na Bahia.
Segundo Renato Holzheim, vice-presidente de Soluções para Construção da Saint-Gobain Brasil, a expansão reflete uma aposta estrutural na construção industrializada. “Acreditamos que o futuro da nossa indústria será mais leve, mais rápido e mais sustentável (…) em um país como o Brasil, que enfrenta escassez de mão de obra qualificada, o aumento da produtividade se torna uma vantagem crucial”, afirma o executivo.
A lógica comercial por trás da frase é direta: sistemas como drywall, steel frame e wood frame permitem reduzir o tempo de construção em até 50% frente aos métodos tradicionais, o que se torna especialmente estratégico num setor que enfrenta dificuldade crônica para contratar mão de obra qualificada.
Meio ambiente
O argumento ambiental também está no centro do anúncio, e não é só discurso corporativo. Comparado à construção convencional, o sistema de placas de gesso pode reduzir em até 39% as emissões de CO₂ por projeto e cortar em até 80% a geração de resíduos de obra, números relevantes num momento em que financiamento e certificação de empreendimentos passam cada vez mais por critérios ESG. Do lado do usuário final, a tecnologia promete ainda ganho de até 10% em área útil e redução de até 30% no consumo de ar-condicionado, o que impacta diretamente o custo de operação dos imóveis entregues.
Para viabilizar a mão de obra qualificada que a própria expansão vai exigir, a Saint-Gobain aposta numa estrutura de capacitação já rodando no país: cerca de 2.500 profissionais são treinados por ano pelo grupo, por meio de 17 academias de treinamento e de parcerias com o Senai. Iniciativas como o “Mestre do Drywall” e o programa “Reforma” – este último voltado à formação de mulheres montadoras – reforçam que o gargalo de qualificação é tratado pela empresa como risco estratégico para o próprio negócio, não apenas como ação de responsabilidade social.
Por que importa
O investimento consolida a Bahia como polo estratégico da Saint-Gobain na América Latina, num setor em que o Brasil ainda tem folga de crescimento em relação a mercados mais maduros. Para a economia baiana, o anúncio significa geração de cerca de 200 empregos diretos e indiretos e reforça a vocação industrial de Feira de Santana, município que já concentra parque fabril relevante no estado.
Para o setor da construção civil, a aposta da Saint-Gobain sinaliza que a industrialização do canteiro de obras – hoje ainda incipiente no Brasil – deve ganhar tração nos próximos anos, pressionada tanto pela escassez de mão de obra qualificada quanto pela busca por eficiência e sustentabilidade nas edificações.
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