
O aumento no preço do plástico, puxado pela crise no Oriente Médio e pelas tensões no Estreito de Ormuz, começou a reorganizar prioridades dentro das operações logísticas do país. Um dos efeitos colaterais desse cenário é o fortalecimento de negócios que, até pouco tempo atrás, disputavam espaço com um insumo barato e descartável: o filme stretch – plástico usado para amarrar cargas paletizadas. É o caso da AgilFix, fabricante catarinense de cintas de amarração de cargas reutilizáveis que projeta faturar R$6 milhões em 2026. Revisão de uma meta que, antes da escalada dos preços, era de R$4,4 milhões.
Fundada em 2016 pelo engenheiro Leandro Hiebl, em Joinville (SC), a empresa nasceu de uma inquietação comum a quem passa anos gerando resultado para os outros sem colher retorno próprio. Depois de anos como torneiro mecânico e depois analista dentro de indústrias, Hiebl conheceu, por meio de um contato nos Estados Unidos, um sistema de amarração de carga que começava a circular por lá em 2012. A primeira tentativa foi importar o produto pronto, e não deu certo.
“Aquele primeiro atendia muito bem o mercado americano, empresas muito bem limpas, organizadas (…). No Brasil não foi uma realidade”, contou o CEO da AgilFix durante entrevista ao programa Webinar da Indústria. A saída foi desenvolver um sistema próprio: cintas e cantoneiras que substituem o plástico-filme, prendendo a carga ao pallet e podendo ser reutilizadas entre 500 e 700 vezes.

Impacto ambiental
O impacto ambiental é o argumento mais visível do negócio, mas não é o único – nem, segundo o próprio fundador, o mais decisivo nas vendas. Ao longo de dez anos de operação, a AgilFix estima ter evitado o descarte de 12 mil toneladas de plástico stretch, volume equivalente a 857 caminhões truck enfileirados, o que formaria uma fila de mais de 8,5 quilômetros.
“O que pesa na balança realmente é a economia”, resume Hiebl, lembrando que o produto também reduz avarias, melhora a ergonomia da equipe e evita retrabalho, argumentos que, segundo ele, convencem gestores de logística mais rápido do que o discurso de sustentabilidade isolado.
A escalada do petróleo, no entanto, é o gatilho mais recente de crescimento. Segundo estimativa citada pela empresa, o preço do plástico subiu até 60% desde fevereiro, pressionado pela crise no Oriente Médio – região responsável por cerca de um quarto das exportações globais de polietileno e polipropileno, matérias-primas do setor.
O movimento já havia se repetido, em menor escala, durante a pandemia, quando a AgilFix também viu a demanda disparar por conta do desabastecimento de plástico. A diferença, desta vez, é que a empresa se antecipou: no início do conflito, comprou estoque de matéria-prima suficiente para quase um ano de produção, evitando repassar aumentos aos clientes. “Hoje a gente está em uma média de 60% a mais de faturamento do planejado”, afirma o CEO.
Esse fôlego financeiro também sustentou um salto de capacidade produtiva: depois de ajustes no processo fabril, a empresa passou a conseguir fabricar até 65 mil cintas por mês, ante uma média histórica de 17 mil. A expansão comercial, por sua vez, seguiu um caminho pouco convencional.
O primeiro grande cliente foi a Whirlpool (dona de marcas como Brastemp e Consul), ainda no início da operação, mas o salto seguinte não veio de prospecção ativa, e sim da migração de profissionais que conheceram o produto em empresas menores e o levaram para companhias maiores. Foi assim que a AgilFix chegou ao Grupo Boticário, hoje um dos principais clientes da marca, inclusive na unidade de Camaçari, na Bahia, que recebe cargas de fornecedores a até dois mil quilômetros de distância amarradas com o sistema da empresa.
Próximos passos
Os próximos passos da companhia miram dois fronts distintos. No mercado interno, a aposta é o setor moveleiro, hoje pouco explorado pela AgilFix apesar do potencial: empresas de médio porte, muitas vezes familiares, com centenas de posições porta-pallet e demanda recorrente por reposição de cintas.
No exterior, o plano é a Europa, um território que, segundo Leando Hiebl, discute ESG com mais intensidade, mas ainda não conta com um concorrente direto à altura do produto brasileiro. A expectativa da empresa é iniciar essa operação nos próximos três a quatro anos, à frente inclusive de uma expansão cogitada para o Paraguai.
O WEBINAR DA INDÚSTRIA é um espaço de diálogo promovido pelo Indústria News para discutir os principais temas que impactam a indústria, a economia e os negócios. A cada edição, empresários, executivos, sindicalistas, pesquisadores, dirigentes e especialistas analisam desafios, oportunidades e tendências que ajudam a compreender os rumos do desenvolvimento industrial da Bahia e do Brasil.
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