
Raimundo Esmeraldino Silva, o Raimundo Siri, é pescador, presidente de associação de moradores e, nas últimas décadas, tornou-se também um ativista involuntário. Não por vocação política, mas por necessidade geográfica. Ele vive na Cova da Onça, um dos quatro vilarejos da Ilha de Boipeba, no município de Cairu, no litoral sul da Bahia. E não aceita que um condomínio de luxo com campo de golfe, aeródromo e pier para 150 barcos seja construído literalmente por cima da sua comunidade.
A história de Boipeba começa antes do turismo. Colonizada desde o século 16, a ilha, cujo nome vem do tupi mboi pewa, referência às tartarugas marinhas, foi, por séculos, território de sobrevivência de comunidades quilombolas e pesqueiras. Hoje, é também um dos destinos mais desejados da Bahia: 20 quilômetros de litoral, recifes de corais preservados, águas cristalinas, sem carros, sem bancos, com o céu mais limpo do sul baiano. Um paraíso. Com todos os conflitos que essa palavra esconde.
Onde fica e o que está em jogo
Boipeba pertence ao Arquipélago de Cairu – o único município-arquipélago do Brasil -, a 356 km de Salvador. Para chegar, é preciso combinar pelo menos dois meios de transporte: carro até Valença, depois lancha ou catamarã por mais de uma hora. A dificuldade de acesso, que afasta o turismo de massa, é também uma das razões pelas quais Boipeba ainda se parece com o Brasil de 40 anos atrás – no bom sentido.
A ilha integra a APA Tinharé-Boipeba, uma área de proteção ambiental estadual de 43.300 hectares. O município de Cairu tem apenas 18.578 habitantes fixos, mas em alta temporada processa cerca de 25 toneladas de resíduos sólidos por dia. O turismo chegou, cresceu e trouxe a conta.
A taxa que chegou — e o debate que ela abre
Em dezembro de 2025, a Câmara Municipal de Cairu aprovou um reajuste na Tarifa por Uso do Patrimônio do Arquipélago (Tupa). Segundo o portal A TARDE, a partir de 1º de julho de 2026, os turistas pagarão R$50 para entrar em Boipeba – pela primeira vez na história da ilha. Em Morro de São Paulo, destino vizinho e já mais consolidado, a taxa passa de R$70 para R$90.
A lógica defendida pela prefeitura é direta: 100% da arrecadação fica no município, aplicada em limpeza, manutenção de trilhas, gestão de resíduos e ordenamento náutico. Em 2024 as despesas vinculadas ao turismo ultrapassaram R$17 milhões, com déficit superior a R$5,9 milhões em relação ao que a Tupa arrecadou. A conta não fecha.
Mas há quem questione o modelo. Pequenos pousadeiros e operadores locais temem que a taxa – somada ao já complexo acesso – afaste o turista de menor renda, elitizando ainda mais um destino que ainda tem chão de areia nas ruas e barracas de peixe fresco na beira da praia. O Lado B da sustentabilidade financeira de um paraíso é, quase sempre, quem consegue pagar para entrar nele.
O lado mais sombrio: o resort que a ilha não pediu
Se a taxa ainda divide opiniões, o megaempreendimento é outra história. Há mais de uma década, um grupo empresarial tenta instalar na Ponta dos Castelhanos um complexo turístico-imobiliário que ocuparia o equivalente a 20% do território da ilha ou 1.600 hectares. O projeto inclui residências de alto padrão, aeródromo, pier para mais de 150 barcos e campo de golfe.
Segundo reportagem do Brasil de Fato, em 2023 o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) concedeu licença para o empreendimento, mesmo diante de recomendações anteriores do Ministério Público Federal para que nenhum licenciamento fosse autorizado na área – onde três processos distintos tramitavam na Superintendência do Patrimônio da União (SPU) para reconhecimento de territórios tradicionais.
Os moradores organizados no movimento Salve Boipeba resistem. Raimundo Siri resume o impasse sem meias palavras: um campo de golfe que consumiria 100 mil litros de água por dia, numa ilha sem abastecimento público consolidado, em cima das rotas tradicionais de pesca.
Do outro lado, a empresa defende que o projeto geraria até 1.500 empregos na alta estação, sem desmatamento significativo e com preservação dos caminhos comunitários. Parte da comunidade de Cova da Onça acredita nisso – e apoia. A divisão é real, e merece ser dita sem simplificação.
O que faz Boipeba funcionar
- A dificuldade de acesso (lancha + trator + caminhada) não afasta. Seleciona. O destino filtra o público, mantendo uma demanda disposta a pagar mais pela experiência
- Sem grandes resorts, a oferta é menor – e isso sustenta preços e margens. É o oposto do turismo de massa
- Cultura local, culinária, ritmo de vida. Nada foi “pasteurizado”. E isso virou diferencial competitivo
Onde o paraíso trava
- O mesmo isolamento que valoriza Boipeba também limita seu crescimentoo
- A logística é o principal gargalo. O transporte de insumos encarece tudo – do gás de cozinha ao material de construção. Isso impacta diretamente o custo de vida dos moradores e o preço final para o turista
- Energia instável, desafios no saneamento e conectividade limitada são reclamações recorrentes. Em alta temporada, a sensação de “paraíso rústico” começa a flertar com “estrutura insuficiente”
O que o leitor leva desta história
Boipeba é um laboratório do principal dilema do turismo brasileiro: como preservar o que atrai o visitante sem expulsar quem sempre viveu ali? A taxa de acesso é um instrumento legítimo, usado em destinos consolidados no mundo todo – das Ilhas Galápagos à Ilha de Páscoa. Mas taxa sem planejamento de uso e sem inclusão das comunidades locais nos benefícios é só mais uma barreira de entrada.
O que está em disputa em Boipeba não é apenas um endereço paradisíaco. É a pergunta que todo destino emergente precisa responder antes que seja tarde: desenvolvimento para quem, e a que custo? A paisagem atrai. O modelo, como sempre, sustenta ou devasta.
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