
Às 19h de um sábado, a Rua das Pedras, em Lençóis, é um microcosmos global. Ouve-se francês, alemão, inglês e o sotaque paulistano em mesas que servem desde o tradicional “pastel de palmito de jaca” até vinhos de alta gama. A cidade, tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde 1973, é o portal de entrada para quem busca o Parque Nacional da Chapada Diamantina.
Entretanto, por trás da iluminação cênica e do casario colonial, Lençóis enfrenta o desafio de ser um “destino maduro”. Se Mucugê ainda está descobrindo seu potencial, Lençóis já o conhece bem demais – e agora precisa lidar com as consequências da própria fama.
O destino em contexto
Lençóis nasceu do brilho dos diamantes no século XIX, mas sua “mina de ouro” atual é o setor de serviços. A cidade possui a melhor infraestrutura da Chapada: um aeroporto com voos regulares e fretamentos turísticos, uma rede hoteleira que vai do hostel ao luxo e um corpo de guias que é referência nacional em profissionalismo. Segundo a Secretaria de Turismo, o setor responde por mais de 80% da movimentação econômica da sede do município.
“Acredito que o turismo é o maior caminho para gerar desenvolvimento e oportunidades para nossa gente. Estamos presentes em feiras nacionais e internacionais para mostrar Lençóis ao mundo e atrair cada vez mais visitantes para a nossa cidade e para a região, e o acesso aéreo é um diferencial”, diz a prefeita de Lençóis, Vanessa Senna.
De acordo com a Secretaria de Turismo de Lençóis, a cidade oferece mais de 5 mil leitos em hospedagens que vão de hotéis de alto padrão a pousadas e albergues. A gastronomia conta com mais de 100 estabelecimentos que unem sabores tradicionais herdados do garimpo a pratos contemporâneos e cafés premiados internacionalmente
Por que funciona: O hub da conveniência
Lençóis é o que chamamos de “destino-base”.
- Diversidade de ticket: Diferente da exclusividade de Mucugê, Lençóis consegue abraçar o mochileiro e o empresário. Há mercado para todos.
- Profissionalização do roteiro: A Associação de Condutores de Visitantes de Lençóis (ACVL) é um exemplo de como organizar a mão de obra local. Eles não vendem apenas trilhas; vendem segurança e conhecimento geológico, transformando a natureza em um produto estruturado.
- Conectividade: O aeroporto Horácio de Mattos é o pulmão que injeta capital de fora sem a necessidade da longa jornada rodoviária de 6 horas a partir de Salvador, facilitando o turismo corporativo e de eventos.
Saturação urbana e o conflito de identidade
Ser o centro das atenções cobra seu preço. O “Lado B” de Lençóis hoje se manifesta na infraestrutura urbana e na pressão sobre o ecossistema.
- O esgotamento da infraestrutura: Segundo o portal Correio*, em períodos de feriados como o São João, a cidade sofre com a sobrecarga de serviços básicos. A falta de água e as oscilações de energia elétrica tornaram-se queixas recorrentes. A rede de esgoto histórica, em algumas áreas, luta para suportar o volume de novos estabelecimentos comerciais, criando um gargalo que ameaça a balneabilidade dos rios próximos, como o Serrano.
- O “over-tourism” nas trilhas: O excesso de pessoas em pontos específicos, como o Morro do Pai Inácio (que fica no município vizinho de Palmeiras, mas é operado majoritariamente a partir de Lençóis), gera um impacto ambiental severo. O desafio é: como crescer em número de visitantes sem destruir o ativo natural que é a razão do negócio?
- A gentrificação e o comércio: O centro histórico tornou-se tão valorizado que o comércio local voltado ao morador (padarias simples, oficinas, pequenos mercados) está sendo expulso para a periferia da cidade, dando lugar a lojas de souvenirs e restaurantes caros. Lençóis corre o risco de virar uma “cidade-cenário”, onde quem mora lá não consegue mais consumir no próprio centro.
O que o leitor leva dessa história
A lição de Lençóis é sobre “gestão de saturação”. Para empresários, a cidade ainda é o lugar mais seguro para investir na Chapada devido ao fluxo constante, mas a oportunidade agora não está em “mais do mesmo”, e sim em soluções de sustentabilidade urbana e diversificação de roteiros.
O destino chegou a um estágio em que o sucesso não se mede mais pelo número de turistas, mas pela capacidade de carga. Se Lençóis não investir em saneamento e em um plano de mobilidade que alivie o centro histórico, ela pode perder o brilho para destinos emergentes que oferecem a paz que a “capital” está começando a sacrificar.
A “coroa” de capital da Chapada é pesada, e o segredo para mantê-la está em cuidar do que está debaixo das pedras: a infraestrutura básica e a qualidade de vida de quem faz a engrenagem girar.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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