A digitalização da indústria trouxe ganhos inquestionáveis de produtividade, mas também derrubou as muralhas que protegiam o chão de fábrica. Se antigamente uma rede industrial era considerada segura por estar “isolada”, hoje a hiperconectividade e o avanço da IoT (Internet das Coisas) criaram o que especialistas chamam de “ecossistema perfeito de ameaças”.
Para entender esse novo tabuleiro de riscos, o programa Webinar da Indústria recebeu Italo Calvano, vice-presidente regional da Claroty para a América Latina. Com mais de 20 anos de experiência e formação focada em infraestruturas críticas, Calvano alertou: a proteção cibernética deixou de ser um anexo da TI para se tornar uma prioridade de sobrevivência do negócio.
Durante entrevista, o executivo foi direto: a digitalização aumentou a eficiência, mas também abriu portas para ameaças que podem parar fábricas, comprometer operações e gerar prejuízos milionários. “A gente criou um ecossistema perfeito de ameaças”, resumiu ele.
O ponto central está na convergência entre TI (tecnologia da informação) e TO (tecnologia operacional). Equipamentos industriais antes isolados agora estão conectados a redes, sensores IoT e sistemas remotos. Na prática, o chão de fábrica virou um ambiente digital – e vulnerável.
Segundo Calvano, o problema começa no básico. Muitas empresas ainda não sabem exatamente quais ativos possuem em suas operações. “Você não protege o que não vê”, afirmou. A falta de visibilidade sobre dispositivos, conexões e acessos cria brechas que podem ser exploradas de formas inesperadas.

Exemplos
E os exemplos não são teóricos. O executivo relatou casos reais de ataques que interromperam operações industriais por falhas simples: desde um modem 4G esquecido por um fornecedor até equipamentos conectados indevidamente à rede. Em outro episódio, um ataque cibernético impediu o resfriamento de uma caldeira, gerando prejuízo e paralisação prolongada.
O risco, segundo ele, vai além da operação. Em setores como energia, saneamento e alimentos, uma falha pode afetar diretamente a sociedade. “Estamos falando de proteger o que faz a sociedade funcionar”, destacou.
Apesar do avanço das ameaças, a maturidade das empresas ainda está em construção, especialmente na América Latina. No Brasil, há evolução em setores como utilities, impulsionada por exigências regulatórias, mas o cenário geral ainda é de transição. Um dos entraves é a divisão de responsabilidades entre equipes de automação e cibersegurança – um conflito que, na prática, deixa lacunas abertas.
Enquanto isso, os ataques evoluem em velocidade maior. Com o uso de inteligência artificial, hackers ganham escala e sofisticação. Hoje, segundo Calvano, já é possível “comprar” agentes de ataque na dark web, elevando o nível de risco para qualquer operação conectada.
O contraste é claro: enquanto as ameaças avançam, muitas empresas ainda discutem quem deve cuidar da segurança. Para o executivo, o caminho começa pelo essencial: mapear ativos, controlar acessos remotos e segmentar redes industriais. Medidas básicas, mas ainda longe de serem universais.
A Claroty
A Claroty, que recentemente levantou US$150 milhões e alcançou valuation de cerca de US$ 3 bilhões, aposta justamente nesse gap. A empresa desenvolve plataformas capazes de mapear, monitorar e proteger ambientes industriais em tempo real, com foco na integração entre operação e segurança.
No fim das contas, a mensagem é menos técnica e mais estratégica. Cibersegurança deixou de ser um tema de TI e passou a ser uma questão de negócio. Ou, como resumiu Calvano: o custo de proteger é alto, mas o custo de parar é muito maior.
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