
No Recôncavo baiano, poucas indústrias deixaram uma marca tão profunda quanto a Usina Cinco Rios, instalada no distrito de Maracangalha, em São Sebastião do Passé. Fundada em 6 de novembro de 1912, a unidade nasceu da fusão de cinco engenhos tradicionais da região – Sincoris, Sapucaia, Cassarangongo, Paramirim e Maracangalha – e rapidamente se transformou em um dos polos açucareiros mais importantes da Bahia. O projeto foi liderado pela tradicional família Costa Pinto, em um momento em que a modernização da indústria do açúcar começava a redesenhar a economia do Recôncavo.
Desde o início, a usina se destacou pelo alto nível tecnológico para a época. O maquinário veio da Companhia Usina Bom Jardim e funcionava com máquinas a vapor e energia elétrica gerada pelo próprio bagaço da cana, uma inovação industrial no início do século XX. Segundo registros históricos citados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), a planta industrial era considerada uma das mais bem equipadas do estado, contando com oficinas, serraria, carpintaria, fundição e até laboratório químico para controle de qualidade da produção.
O crescimento foi rápido. Já em 1917, a usina produziu 31,7 mil sacas de açúcar de 60 quilos e 1.440 pipas de mel, números expressivos para o período. A logística também impressionava: a empresa mantinha oito quilômetros de ferrovia própria, três locomotivas e uma estação ferroviária, usadas tanto para transportar a cana quanto para deslocar trabalhadores. Esse sistema conectava a produção agrícola às moendas da fábrica e ajudava a dinamizar a economia local, segundo registros históricos citados pela Wikipedia.
Com o passar das décadas, a usina mudou de mãos e continuou crescendo. Nos anos 1930, passou a ser controlada pelo empresário e político Clemente Mariani, sendo posteriormente administrada por Álvaro Martins Catharino e, na década seguinte, pelo usineiro Augusto Novis.
No auge da atividade, entre as décadas de 1950 e 1970, o complexo chegou a empregar cerca de mil trabalhadores diretos e até dois mil considerando a cadeia agrícola, movimentando grande parte da economia regional, segundo estudo da professora Idalina Maria Almeida de Freitas, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
Cidade industrial
Mais do que uma fábrica, a Cinco Rios funcionava como uma verdadeira cidade industrial. Nos anos 1950, os proprietários construíram uma vila operária com cerca de 400 casas, além de escola primária, igreja, cinema e infraestrutura de água e energia elétrica. O povoado cresceu ao redor da usina e acabou se transformando no atual distrito de Maracangalha. A presença da indústria era tão dominante que, segundo reportagem da revista Carta Capital, a empresa fornecia praticamente tudo aos trabalhadores – “do alfinete ao caixão”.
O cotidiano também deixou marcas culturais. Sambas de roda, rodas de capoeira e partidas de futebol faziam parte da sociabilidade dos trabalhadores após as longas jornadas no campo e nas moendas. A região acabou eternizada pela música “Maracangalha”, de Dorival Caymmi, inspirada nas histórias e personagens locais. Entre elas estava a lendária sambadeira Anália, figura lembrada até hoje na memória popular do distrito.
Mesmo com toda essa força, a usina não escapou da crise que atingiu o setor açucareiro no Nordeste a partir da segunda metade do século XX. Embora tenha registrado sua maior safra em 1972, produzindo açúcar de alta qualidade, o avanço da concorrência de outras regiões, a perda de competitividade e problemas estruturais do setor levaram a sucessivas dificuldades operacionais. Ao longo da história, a empresa chegou a fechar e reabrir em diferentes momentos, passando por diversas administrações.
O fim
O amargo desfecho ocorreu em 1987, quando a usina encerrou definitivamente suas atividades. O fechamento não foi apenas o fim de um negócio, mas um trauma social que gerou o esvaziamento econômico de Maracangalha e o abandono de um patrimônio bilionário.
As máquinas vindas da Europa e dos EUA, que outrora representavam a vanguarda industrial, foram deixadas para trás. Segundo a Wikipedia, a edificação em ruínas hoje é um “esqueleto” de tijolos que guarda maquinários se deteriorando sob a ação do tempo, embora protegidos como Patrimônio Histórico Estadual desde 2011.
Mais de um século após sua fundação, a Usina Cinco Rios continua viva na memória do Recôncavo. Nas histórias contadas pelos moradores, ainda ecoam o barulho das locomotivas, o vapor das caldeiras e o cheiro doce da cana moída – sinais de um tempo em que Maracangalha girava ao ritmo da indústria do açúcar.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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