O horizonte do Centro Industrial de Aratu (CIA) guardou, por quase quatro décadas, a silhueta imponente da fábrica de alumínio primário que se tornou um marco urbano e econômico da Bahia. Ali funcionou uma das mais emblemáticas plantas de alumínio do Nordeste, instalada em 1972 e considerada a primeira indústria de alumínio do Nordeste brasileiro. A unidade, que ao longo do tempo passou por diferentes controladores – entre eles a antiga Alcan – tornou-se um dos pilares da industrialização da região, empregando centenas de trabalhadores e movimentando uma cadeia de serviços e fornecedores no entorno do polo petroquímico.
No auge das operações, a planta tinha capacidade para produzir cerca de 60 mil toneladas por ano de placas e lingotes de alumínio, matéria-prima essencial para diversas cadeias industriais. O ritmo intenso da produção transformou a unidade em referência na indústria local. Para muitos moradores da região, a rotina da unidade era marcada por sinais bem conhecidos: o fluxo de turnos de operários, o movimento de carretas carregando metal e a presença constante de trabalhadores com uniforme industrial circulando pela cidade.
Com o tempo, a operação passou a integrar o portfólio da Novelis – multinacional do setor de alumínio controlada pela indiana Hindalco Industries, parte do conglomerado Aditya Birla Group. A empresa chegou a manter presença relevante na indústria brasileira do alumínio, mas a unidade baiana começou a enfrentar dificuldades a partir do final dos anos 2000. Segundo comunicado divulgado pela companhia à época e repercutido pela imprensa econômica, a fábrica operava há cerca de dois anos com prejuízo, pressionada por custos operacionais elevados e perda de competitividade.
O cenário se agravou após a crise financeira internacional de 2008, que afetou diversos segmentos industriais e reduziu a demanda global por metais. A Novelis enfrentava uma desvantagem competitiva severa: produzir alumínio primário em Candeias tornou-se mais caro do que importá-lo ou focar na reciclagem. A tecnologia da planta, embora eficiente para os anos 70 e 80, já não conseguia mitigar os custos operacionais frente aos gigantes asiáticos.
O fechamento
Em dezembro de 2010, a empresa anunciou o fechamento definitivo da planta de Aratu. A decisão resultou na demissão de cerca de 300 a 400 trabalhadores diretos, além de terceirizados, e marcou o fim da única operação da companhia no Nordeste. Segundo reportagem publicada pela agência Reuters, a empresa afirmou que concentraria suas atividades no Brasil nas unidades de São Paulo e Minas Gerais.
O encerramento das atividades teve forte repercussão social e trabalhista. A demissão coletiva acabou gerando uma longa disputa judicial. Em 2012, o Tribunal Superior do Trabalho condenou a empresa a indenizar cerca de 400 trabalhadores por realizar as dispensas sem negociação prévia com o sindicato, decisão considerada um precedente importante na jurisprudência trabalhista brasileira, conforme noticiou o Jornal da Mídia.
Mais tarde, em 2013, um acordo judicial homologado na Justiça do Trabalho destinou cerca de R$4 milhões em indenizações para 323 ex-funcionários, segundo informações da Secretaria de Comunicação do TRT da 5ª Região.
Efeito dominó
O fechamento em Candeias foi o primeiro sinal de um efeito dominó que atingiria outras plantas da empresa, como a de Ouro Preto (MG) em 2014. Especialistas e portais como o Exame destacaram que a “fria conveniência econômica” e a crise energética foram implacáveis. Para os metalúrgicos baianos, a Novelis deixou um legado de especialização técnica, mas também uma cicatriz sobre a fragilidade das indústrias eletrointensivas diante das oscilações de mercado e políticas de estado.
Hoje, as instalações em Aratu são o registro de uma era de ouro da metalurgia baiana que sucumbiu aos custos globais. A Novelis segue líder mundial em reciclagem, mas seu coração produtivo bate longe da Bahia. O que resta no CIA é a memória de uma indústria que, por 38 anos, transformou minério em desenvolvimento, deixando para a história lições profundas sobre economia, direitos trabalhistas e a importância da competitividade regional.
O que você mais lembra da presença da Novelis na região: o movimento de caminhões, o barulho da fábrica ou alguém conhecido que trabalhava lá?
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