
No fim do século XIX, nas margens da linha férrea que ligava o Subúrbio de Salvador à região portuária, surgiu algo que mudaria o destino de toda uma comunidade: a Fábrica São Braz. Fundada em 1875, na então Fazenda Brandão, a unidade se instalou na atual Rua Almeida Brandão, nº 63, no bairro de Plataforma, em uma área estratégica à beira-mar, aos pés do morro, próxima à ferrovia e à Enseada do Cabrito. Sua fachada voltada para a Baía de Todos-os-Santos não era mero detalhe arquitetônico: refletia a lógica industrial da época, que combinava transporte marítimo, ferroviário e acesso aos fluxos comerciais da cidade.
Criada pelos imigrantes portugueses Manoel Francisco de Almeida Brandão e Antonio Francisco Brandão Jr., a São Braz nasceu como uma pequena planta têxtil e rapidamente passou a ocupar papel central na economia local. Em 1882, a fábrica passou ao controle de Antonio Francisco Brandão & Cia., e, apenas quatro anos depois, em 1886, já atravessava um processo de modernização, com a instalação de novas máquinas, ampliação da produção de tecidos e diversificação de produtos até então inexistentes na unidade.
Mais do que motores e teares, a São Braz produziu vida social. O apito da fábrica marcava o ritmo dos dias. Ao redor de seus barracões e casas operárias nasceu um bairro inteiro, que incorporou mercados, escolas, comércio e tradições próprias. Plataforma cresceu junto com a fábrica – um exemplo claro de como a indústria foi capaz de moldar não apenas a economia, mas também o tecido urbano e cultural de Salvador.
Em 1891, a Fábrica São Braz foi incorporada pela Companhia Progresso Industrial da Bahia, junto com outras unidades da região. A mudança inaugurou um novo ciclo de expansão. Entre 1907 e o início de 1910, a fábrica passou por uma ampla reforma estrutural, incorporando prédios anexos, ampliando significativamente sua área produtiva e abrindo caminho para o aumento dos lucros da Companhia.
Nesse período, decidiu-se também pela construção de um edifício em frente à fábrica, em terreno conquistado ao mar, destinado à seção de branqueamento. A obra foi acompanhada pela implantação de um cais com cerca de 140 metros de extensão, reforçando a integração logística da unidade. Além disso, a São Braz contava com barracões industriais espalhados pelas adjacências da ferrovia, consolidando-se como um complexo fabril de grande porte para os padrões da época.
Fusão
A partir da década de 1930, os sinais de desgaste começaram a se intensificar. Em 1932, ocorreu a fusão entre a Companhia Progresso Industrial e a Companhia União Fabril, sob a liderança de Bernardo Catharino, fortalecendo temporariamente a presença da São Braz no mercado têxtil. Mas os desafios estruturais da indústria têxtil baiana se acumulavam: concorrência crescente de produtos importados, altos custos operacionais e um parque fabril cada vez mais defasado.
Após a morte de Catharino, em 1944, seus sucessores assumiram o comando da Companhia e promoveram mudanças profundas na gestão e na relação com o operariado. Somadas à queda dos preços dos têxteis no pós-Segunda Guerra Mundial e à modernização acelerada dos grandes polos industriais do Sudeste, essas transformações tornaram insustentável a operação das antigas fábricas. Em 1959, após décadas marcando o cotidiano de Plataforma, a Fábrica São Braz fechou suas portas.
Hoje, o bairro de Plataforma ainda carrega, quase em silêncio, as marcas desse passado industrial. Entre ruínas, galpões descaracterizados e caminhos que já não levam aos antigos cais, permanecem as memórias de um tempo em que o som dos teares se misturava ao apito dos trens e ao vai-e-vem da Baía de Todos-os-Santos. A Fábrica São Braz foi mais do que uma unidade produtiva: foi referência, rotina e identidade. Ao desaparecer, levou consigo um modo de viver e trabalhar que moldou gerações. Lembrá-la é revisitar uma Salvador que produzia, sonhava e se reconhecia no próprio chão de fábrica.

Fábrica São Braz: fatos essenciais
Localização
- Rua Almeida Brandão, nº 63, bairro de Plataforma
- À beira-mar, com fachada voltada para a Baía de Todos-os-Santos
- Próxima à ferrovia e à Enseada do Cabrito
Fundação e controle
- Fundadores: Manoel Francisco de Almeida Brandão e Antonio Francisco Brandão Jr.
- 1882: passa a pertencer a Antonio Francisco Brandão & Cia.
- 1891: adquirida pela Companhia Progresso Industrial da Bahia
Expansões e infraestrutura
- Reforma e modernização em 1886
- Grande ampliação entre 1907 e 1910
- Incorporação de prédios anexos
- Construção de edifício de branqueamento em terreno conquistado ao mar
- Cais com cerca de 140 metros de extensão
- Barracões industriais próximos à ferrovia
Declínio
- 1932: fusão com a Companhia União Fabril
- 1944: mudanças de gestão após a morte de Bernardo Catharino
- 1959: desativação da Fábrica São Braz
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MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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