Por Marco Lessa*
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia finalmente se concretizou, prometendo criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 700 milhões de consumidores. Embora o tratado represente uma oportunidade histórica para ambos os blocos, é inegável que a Europa parte de uma posição mais consolidada nesta parceria.
O Velho Continente já domina o jogo da exportação para a América do Sul há décadas, enviando ao Brasil desde vinhos portugueses e azeites espanhóis até maquinário alemão de alta tecnologia, cosméticos franceses e produtos farmacêuticos de ponta. A sofisticação europeia em termos de certificações de qualidade, sustentabilidade e valor agregado coloca seus produtos em posição privilegiada para conquistar ainda mais espaço no mercado brasileiro assim que as tarifas caírem.
O Brasil enfrenta o desafio de transformar seu imenso potencial produtivo em competitividade real no exigente mercado europeu
Enquanto isso, o Brasil enfrenta o desafio de transformar seu imenso potencial produtivo em competitividade real no exigente mercado europeu. Não basta ter café de qualidade excepcional, frutas tropicais únicas ou carne bovina em abundância. É preciso atender aos rigorosos padrões fitossanitários, ambientais e de rastreabilidade que os consumidores europeus exigem.
A boa notícia é que o Brasil já começou a fazer sua lição de casa. Iniciativas como o projeto Casa Brasiliana em Portugal, que promove a cultura e os produtos brasileiros em solo europeu, e as edições do Brasil Origem Week na Bélgica, França e Portugal demonstram uma estratégia mais sofisticada de penetração no mercado. Essas ações vão além da simples exportação: criam narrativas, despertam desejo e constroem relacionamentos duradouros com consumidores e distribuidores europeus.
O acordo com a União Europeia não é uma linha de chegada, mas uma largada. Para o Brasil, representa a chance de deixar de ser visto apenas como fornecedor de commodities e assumir o papel de exportador de produtos diferenciados, sustentáveis e carregados de identidade. A diferença pode ser tirada, mas exige trabalho conjunto entre governo, setor privado e produtores, além de investimento em capacitação, infraestrutura e marketing internacional. A Europa pode estar na frente hoje, mas o jogo está apenas começando, e o Brasil tem tudo para surpreender.
- Marco Lessa é empresário no Brasil e Europa, criador do Chocolat Festival, Casa Brasiliana e Brasil Origem Week
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