Com meio século dedicado à engenharia industrial, Nelson Romano, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (Abemi), é daqueles nomes que ajudam a contar a história do desenvolvimento do país. Engenheiro industrial químico pela FEI, ele tem passagens pela Petrobras e pela extinta Copene e uma ligação profunda com a Bahia, onde ajudou, a partir do finalzinho de 1978, a escrever os primeiros capítulos do Polo Petroquímico de Camaçari.
“A Bahia é minha terra”, diz Romano, com o humor de quem viu o Polo se transformar em motor da economia baiana. “O Polo duplicou o PIB da Bahia e trouxe um período de grande bem-estar para as pessoas. Lembro que, no início, os operários chegavam de chinelo para trabalhar e, um ano depois, vinham de Chevette próprio”, contou durante entrevista ao programa Webinar da Indústria.
De lá para cá, Nelson Romano acompanhou de perto o auge e as crises da engenharia brasileira. Das refinarias e complexos petroquímicos dos anos 1970 e 1980, à retração dos anos 1990 e ao impacto devastador da Operação Lava Jato. Hoje, ele enxerga um novo ciclo de fôlego para o setor, impulsionado por grandes projetos em refino, papel e celulose e pela retomada da indústria de óleo e gás.
“A engenharia volta a ganhar fôlego com a retomada de projetos e novas oportunidades. A Petrobras continua sendo o carro-chefe e o Estado segue como indutor dos investimentos”, afirmou ele.

O desafio
Nelson Romano assumiu pela primeira vez a presidência da Abemi em 2016, em meio a uma das maiores crises econômicas da história recente do Brasil. Período marcado por juros altos, inflação elevada e queda nos investimentos. O setor de engenharia foi duramente impactado.
Em seu atual segundo mandato, ele tem tido uma olhar cuidadoso para os recursos humanos e a tecnologia, especialmente diante da revolução digital e da escassez de engenheiros no país.
O alerta é claro: o Brasil tem cerca de 930 mil engenheiros ativos e forma, todo ano, 90 mil novos proffissionais, número que já foi 130 mil. Ele acredita que parte do problema está na percepção social da profissão, que perdeu o prestígio que tinha nas décadas de 1970 e 1980. “Quando me formei, havia disputa pelo engenheiro. Era uma profissão nobre”, afirma.
A Abemi, segundo o presidente, tem trabalhado em conjunto com outras entidades para reverter essa tendência e aproximar os jovens da engenharia, apresentando o setor como parte da solução para os desafios do desenvolvimento sustentável.
Margem Equatorial
Entre os temas que mais empolgam o presidente da Abemi está a exploração da Margem Equatorial, área que ele considera estratégica para o futuro energético do Brasil. “Os campos atuais são excelentes, mas finitos. Lá pelo fim desta década, precisaremos de uma nova fronteira de exploração. A Margem Equatorial pode ser o novo pré-sal. Isto significa mais 15 anos de segurança energética e progresso”, projeta.
Para ele, a transição energética é inevitável, mas deve seguir “a velocidade que a sociedade conseguir fazer”. Enquanto isso, cabe à engenharia garantir que o país mantenha competitividade, inovação e soberania energética.
Nelson Romano fala com a serenidade de quem viu o Brasil construir refinarias, erguer complexos petroquímicos e enfrentar décadas turbulentas sem perder a crença na força transformadora da engenharia. “A engenharia brasileira é competente. Não ficamos a dever a ninguém. Nosso problema não é qualidade . É quantidade”, resume.
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