Q uase metade das indústrias de materiais de construção no Brasil vendeu mais no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, sete em cada dez não confiam nas ações do governo para o setor. Esse é o retrato que o Termômetro Abramat traçou para junho – um setor que segue de pé pela força do mercado interno, mas que opera sob desconfiança persistente do ambiente político e econômico.
Os números da demanda doméstica são, à primeira vista, animadores. Segundo o levantamento, 45% das empresas registraram aumento nas vendas no segundo trimestre, 32% relataram estabilidade e apenas 23% viram queda. A utilização da capacidade instalada ficou em 75%, o mesmo patamar de maio, e acima dos 74% de junho do ano passado. Não é um boom, mas é sustentação.
A percepção sobre o mercado também melhorou. Em maio, 23% das empresas classificavam o momento como ruim. Em junho, essa fatia caiu para 18%. A maioria – 45% – ainda avalia o cenário como “regular”, o que sinaliza estabilidade sem euforia. Para julho, 64% das empresas esperam continuidade nesse patamar estável, e 32% projetam melhora.
“O mercado doméstico continua sendo o principal fator de sustentação da atividade da indústria de materiais de construção”, resume Mauro Franco, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat). Ele lê a pesquisa como sinal de que a recuperação gradual do primeiro semestre pode estar entrando numa fase de acomodação, nem aceleração, nem retrocesso.

Investimentos
Os planos de investimento seguem essa mesma lógica de cautela com continuidade. Em junho, 59% das empresas afirmaram pretender investir nos próximos 12 meses, dois pontos percentuais a menos que em maio, mas ainda sete pontos acima do registrado em junho de 2025. Entre quem planeja investir, 32% priorizam modernizar processos produtivos e 27% miram ampliar capacidade instalada. É dinheiro indo tanto para eficiência quanto para crescimento futuro – não é uma indústria parada, é uma indústria seletiva.
No mercado externo, o quadro muda de figura. Só 22% das empresas esperam crescer as vendas no trimestre atual. Mais da metade, 56%, projeta estabilidade, e outros 22% preveem queda. A exportação, diferentemente do mercado interno, não dá sinal de tração.
E então vem o dado que talvez mereça mais atenção do que recebeu no próprio levantamento: a confiança no governo. Apenas 5% das empresas se dizem otimistas com as ações voltadas ao setor. Quase três em cada quatro – 73% – se declaram indiferentes. Outras 23% são francamente pessimistas.
O que observar
o setor de materiais de construção está numa posição incomum: vendendo bem, investindo com disciplina, mas sem depositar fé alguma no ambiente institucional em que opera. Esse descolamento entre desempenho e confiança é um sinal de alerta que vai além dos números do trimestre: mostra empresas planejando na base da própria resiliência, não da previsibilidade que o poder público deveria oferecer.
Mauro Franco resume o ponto sem rodeios: “Quanto maior a segurança para planejar, maior será a capacidade da indústria de transformar essa resiliência em um ciclo consistente de crescimento.” Por ora, a indústria segura o próprio crescimento sozinha, o que funciona, mas tem limite.
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