
Q uem caminha pelas ruas de paralelepípedos de Mucugê, com suas fachadas coloniais impecavelmente preservadas e o icônico Cemitério Bizantino encravado na rocha, sente um silêncio que custa caro. A cerca de 450 km de Salvador, a cidade não é apenas o portal da Chapada Diamantina; é o laboratório de um novo modelo econômico baiano: a fusão do turismo de experiência com o agronegócio de exportação.
Se em outros destinos da Chapada o clima é de “mochileiro”, em Mucugê o papo é sobre vinho, morango, café especial e valor agregado.
Na Chapada Diamantina, Mucugê trocou o garimpo por vinhos premiados — e transformou paisagem em valor agregado
Mucugê vive sobre um platô a mil metros de altitude. Esse isolamento geográfico, que antes dificultava o acesso, tornou-se seu maior ativo. O clima ameno permitiu que a região se transformasse em um polo de fruticultura de clima temperado. Segundo o portal AgroemDia, a região é responsável por uma fatia generosa da produção de batatas e morangos do Nordeste, mas o “lado A” da economia agora brilha com as vinícolas de altitude.
“Em Mucugê, o tempo parece desacelerar. A limpeza das ruas, seu casario colonial e o acolhimento dos moradores fazem da cidade um destino ideal para quem busca paz, beleza e história”, diz a advogada paulista Mércia Seixas. Seu marido, o também advogado Luiz Seixas, acrescenta: A cidade trata bem os turistas, os funcionários dos hotéis e restaurantes são bem treinados, educados. O serviço é bem ágil nesta época do ano. E a região [a Chapada Diamantina] é linda,”,
O triângulo de ouro (clima + investimento + marca)
O sucesso de Mucugê é um case de posicionamento de mercado:
Turismo de Nicho: A cidade optou por não incentivar o turismo de massa. O ticket médio aqui é elevado. Pousadas boutique e restaurantes que harmonizam pratos locais com vinhos premiados (como os da Vinícola Uvva) atraem um público que busca exclusividade, e não aglomeração.
O luxo silencioso que encanta turistas também pressiona água, imóveis e o custo de viver na cidade
A indústria do vinho: A chegada de grandes investimentos em vitivinicultura mudou o perfil do visitante. O turista agora vai para Mucugê para “beber a paisagem”. Isso gera uma cadeia de empregos qualificados, da sommelieria à agronomia de precisão.
Preservação como ativo: O tombamento pelo Iphan é rigoroso. A cidade “funciona” visualmente porque houve uma decisão política e empresarial de não permitir o crescimento desordenado que ferisse a estética colonial.
O Lado B: o conflito da água e o custo da prateleira
Mas, como todo destino que “dá certo”, Mucugê tem suas tensões de bastidor que o turista de final de semana raramente percebe.
A guerra pela água: O Lado B mais sensível é o uso dos recursos hídricos. O agronegócio intensivo de grandes grupos empresariais consome volumes colossais de água em uma região de cabeceiras de rios (como o Paraguaçu). Relatos de comunidades tradicionais e ambientalistas, frequentemente destacados em sites como o EcoDebate, apontam para o rebaixamento do lençol freático e o risco de desabastecimento para o consumo humano em prol da irrigação industrial.
A inflação do real: Mucugê tornou-se uma “ilha de custo alto”. Para o morador local que não está inserido na cadeia direta do turismo ou do grande agro, o custo de vida disparou. O preço do imóvel e dos itens básicos de consumo subiu a reboque do poder aquisitivo do turista de luxo, gerando uma exclusão invisível.
Mão de obra e sazonalidade: Embora o agro gere emprego, ele é mecanizado e técnico. O setor de serviços turísticos ainda sofre para encontrar profissionais qualificados que aceitem morar em uma cidade com alto custo de aluguel, criando um gargalo operacional para os novos hotéis.
O que o leitor leva dessa história
Mucugê ensina que identidade visual e segmentação são as chaves para fugir da “commoditização” do turismo. A cidade não vende apenas uma cachoeira; ela vende um estilo de vida sofisticado no interior.
No entanto, o desafio para o futuro é o equilíbrio ambiental. Se o agronegócio exaurir as fontes de água que alimentam as cachoeiras e o visual da Chapada, a “galinha dos ovos de ouro” morre de sede.
Para o investidor, Mucugê é a prova de que o interior da Bahia tem um potencial de consumo de luxo gigantesco, desde que a infraestrutura ambiental seja tratada como prioridade estratégica, e não apenas como cenário.
E você, concorda com essa leitura de Mucugê?
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O lado B dos destinos também se constrói com quem vive – e sente – o lugar.
O que fazer e onde ir
- Cemitério Bizantino
- Museu Vivo do Garimpo
- Projeto Sempre Viva
- Sítio do Galera
- Museu do Garimpo
- Cachoeira dos Funis
- Trilha das Sete Quedas
- Vale do Pati
- Poço Azul
- Beco da Bateia
- Sabor da Picanha
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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