
Era o dia 29 de junho de 1978. O presidente Ernesto Geisel desembarcou em Camaçari, a cerca de 50 quilômetros de Salvador, para uma cerimônia que a Bahia jamais esqueceria. Em seu discurso naquele dia histórico, ele disse que “o Brasil pode se considerar orgulhoso pelo tudo que aqui se fez”. Não era exagero. Num só ato, 11 indústrias petroquímicas eram inauguradas simultaneamente – algo que a Revista Manchete, na sua edição de 22 de julho de 1978, descreveu como sendo “a primeira vez no Brasil, e talvez no mundo”, que tantas fábricas do setor eram entregues de uma só vez, num investimento superior a US$1,35 bilhão. O valor superava o próprio orçamento anual do Estado da Bahia àquela época, que era de US$1 bilhão. No centro de tudo aquilo, como motor e espinha dorsal do complexo, estava a Companhia Petroquímica do Nordeste, a Copene.
Idealizada pelo economista baiano Rômulo Almeida, a Copene mudou a face da Bahia. O estado, antes dependente do cacau e da agricultura, passava a dominar a tecnologia de ponta. No auge de sua construção, a empresa chegou a mobilizar 26 mil trabalhadores, transformando cidades pacatas como Camaçari e Dias d’Ávila em formigueiros humanos de capacetes e macacões.
Para quem viveu aquela era, a Copene era uma experiência sensorial. O som era o rugido constante das tochas (os flares), que iluminavam o céu noturno como faróis de progresso. O hábito era o vaivém dos ônibus de funcionários que cortavam a Estrada do Coco, criando uma nova classe média técnica no Nordeste. A empresa era um marco urbano; suas torres de resfriamento e colunas de destilação formavam um horizonte de metal que simbolizava a “fé na capacidade do país”, como discursou o general Geisel na inauguração.
A Copene operava como uma engrenagem central. Era o coração do Polo. Sua função era produzir os petroquímicos de primeira geração – eteno, propeno e outros derivados da nafta e do gás natural -, que alimentavam as dezenas de fábricas ao redor, as chamadas indústrias de segunda e terceira geração. Como explicou a Folha de S.Paulo (20 de agosto de 2002), tratava-se da chamada primeira geração petroquímica, base para a produção de plásticos, resinas, tintas e fibras sintéticas que abastecem diversos setores da economia. Sem a Copene, o Polo simplesmente não funcionava.

Modelo inovador
O primeiro polo petroquímico planejado do país nasceu com atividades operacionais integradas e sistemas de proteção ambiental e de segurança industrial avançados para a época
O modelo que sustentava esse avanço era igualmente inovador e, ao mesmo tempo, complexo. Inspirado pelo governo militar, o setor petroquímico brasileiro adotou o chamado modelo tripartite, reunindo Estado, capital privado nacional e empresas estrangeiras. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo (9 de outubro de 1997), a proposta buscava acelerar a industrialização e reduzir a concentração no eixo Sul-Sudeste. Funcionou, ao menos por um tempo.
Nos anos 1990, a Copene atingiu seu auge. Produzia cerca de 1,2 milhão de toneladas anuais de petroquímicos básicos, sendo a maior central do país, à frente de polos no Sul e Sudeste. A meta era atingir 1,8 milhão de toneladas até 2003. Seu faturamento girava em torno de US$2 bilhões, de acordo com a Revista IstoÉ Dinheiro, que classificou a empresa como a “princesinha do setor”.
Mas o modelo começou a dar sinais de esgotamento. A estrutura societária fragmentada, criada pelo próprio Estado, tornou-se um emaranhado difícil de gerir. Empresas eram ao mesmo tempo sócias e concorrentes, travando decisões estratégicas e limitando ganhos de escala. O setor virou uma “bagunça” acionária, incapaz de competir com multinacionais mais integradas e capitalizadas.
Privatização
A virada veio com a privatização. O destino da companhia foi decidido em um leilão tenso e intrincado em 2001. A revista IstoÉ Dinheiro descreveu a disputa como um “tabuleiro marcado”, envolvendo gigantes como o Grupo Ultra e a Dow Química. Ao final, a Odebrecht e o Grupo Mariani levaram o controle da central por R$ 785 milhões. Não houve um fechamento de portas no sentido literal, mas sim uma metamorfose: em 2002, a Copene deixou de existir como marca para se tornar o alicerce da Braskem.
Em 16 de agosto de 2002, a Braskem nasceu oficialmente da integração das empresas Copene, OPP, Trikem, Proppet, Nitrocarbono e Polialden, controladas pelos grupos Odebrecht e Mariani
A transição não significou o desaparecimento físico da Copene, mas sua absorção em uma nova lógica industrial, mais integrada, privada e globalizada. O Polo de Camaçari seguiu crescendo, diversificando-se e hoje abriga mais de 90 empresas. Mas o modelo original, estatal e tripartite, ficou para trás.
Décadas depois, a história dá mais uma volta. A Braskem, herdeira direta da Copene, enfrenta crises relevantes e pode mudar novamente de controle. A empresa encerrou 2025 com dívida líquida ajustada de US$7,5 bilhões e alavancagem corporativa de 14,74 vezes, praticamente o dobro do registrado um ano antes.
O prejuízo líquido do quarto trimestre de 2025 bateu R$ 10,2 bilhões, 82% superior ao resultado negativo do mesmo período de 2024. Os auditores da KPMG registraram formalmente uma “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional da companhia”.
Desfecho
A trajetória da Copene é, em resumo, um espelho fiel da industrialização brasileira: ousada na concepção, vigorosa na execução, transformadora em seus resultados e, ao fim, vulnerável às contradições que ela mesma ajudou a construir. Hoje, o nome “Copene” sobrevive apenas na memória afetiva e nos manuais técnicos.
A empresa que ajudou a transformar a Bahia de “fazenda” em “indústria” deixou um legado de infraestrutura e conhecimento que permitiu ao Polo de Camaçari abrigar, décadas depois, desde fábricas de automóveis até torres de energia eólica.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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