Durante muitos anos, o nome Fratelli Vita foi presença constante na vida das famílias baianas e nordestinas, não apenas como fabricante de alimentos, mas como pioneira em refrigerantes e artefatos de vidro que se tornaram símbolos de um tempo em que a indústria local ainda tinha força para concorrer com grandes marcas internacionais.
Fundada em 1902 pelos imigrantes italianos Giuseppe e Francesco Vita, a empresa começou em Salvador produzindo licores e rapidamente se tornou referência regional em refrigerantes – incluindo o famoso guaraná – e bebidas de frutas, além de água tônica e “gasosas” que adoçavam festas, paradas e encontros familiares.
A fábrica da Fratelli Vita, instalada na Rua Barão de Cotegipe, bairro da Calçada, em Salvador, foi muito além de uma simples linha de produção: era o lugar onde se concorria com refrigerantes nacionais e internacionais, e onde a marca se inseriu na cultura do consumo no Nordeste. O Guaraná Fratelli Vita, em especial, tornou-se um ícone local, lembrado por muitos como tão marcante quanto as opções das gigantes do setor – e até voltou a ser produzido de forma artesanal décadas depois, diante da enorme saudade deixada na memória dos consumidores.
Com as dificuldades de importação de garrafas de vidro durante a Primeira Guerra Mundial, os Vita aproveitaram para expandir a capacidade produtiva e passar a fabricar seus próprios frascos e cristais, criando ainda uma linha sofisticada de vidros artísticos – taças, copos, compoteiras e peças de cristal reconhecidas internacionalmente pela qualidade, brilho e transparência. A partir da década de 1950, essa produção se tornou outro pilar da marca, conferindo um prestígio extra à empresa, que figurava tanto em mesas festivas quanto nos pontos de venda de bebidas e lembranças.
No auge, a Fratelli Vita era muito mais que uma fábrica de refrigerantes ou cristais: era uma referência industrial familiar que gerava empregos, atraía consumidores leais e fazia parte do cotidiano urbano de Salvador e de outras capitais nordestinas. Seus produtos – bebidas, garrafas e cristais – circulavam em festas, eventos e lares, deixando uma marca afetiva que dura até hoje entre quem cresceu provando guaraná da Fratelli ou brindando com seus copos de cristal.

O declínio
O declínio começou com o aumento da concorrência, especialmente de grandes grupos nacionais e internacionais que dominavam o mercado de bebidas e tinham acesso a economias de escala que a indústria regional dificilmente poderia igualar.
Em 1972, a Fratelli Vita foi vendida para a Brahma, que posteriormente produziu algumas bebidas semelhantes por um período antes de descontinuar as linhas originais. A fábrica de Salvador terminou suas atividades, e parte de sua história industrial ficou guardada nas memórias dos consumidores e no patrimônio arquitetônico local.
Hoje, o nome Fratelli Vita carrega não apenas lembranças de um sabor regional que atravessou gerações, mas também o legado de uma indústria que soube navegar entre cristal e gás, entre bebida e memória.
Mais do que uma marca, foi um capítulo da produção local que marcou o paladar e o tempo de muita gente – e que, mesmo após fechar, segue sendo resgatado por iniciativas familiares que tentam reviver seus sabores clássicos no mercado contemporâneo.
Linha do Tempo
- 1902 – Imigrantes italianos Giuseppe e Francesco Vita fundam a Fratelli Vita em Salvador. A produção inicial inclui bebidas alcoólicas e, pouco depois, refrigerantes artesanais.
- Décadas de 1910–1920 – A empresa consolida a produção de refrigerantes e gasosas, com destaque para o Guaraná Fratelli Vita, que rapidamente ganha popularidade na Bahia.
- Primeira Guerra Mundial (1914–1918) – Dificuldades na importação de garrafas levam a empresa a investir na produção própria de vidro, abrindo caminho para a fabricação de frascos, copos e peças utilitárias.
- Décadas de 1930–1940 – A fábrica da Calçada, em Salvador, se torna um polo industrial importante, combinando bebidas, embalagens e cristais, gerando empregos e fortalecendo a marca regionalmente.
- Década de 1950 – A Fratelli Vita amplia a produção de cristais e vidros artísticos, com taças, copos e peças decorativas reconhecidas pela qualidade e presentes em lares e eventos sociais.
- 1952 – Empresa patrocinou o trio elétrico Dodô e Osmar.
- Décadas de 1960–1970 – A concorrência com grandes grupos nacionais e multinacionais no setor de bebidas pressiona custos e margens. A empresa enfrenta dificuldades para manter escala e competitividade.
- 1972 – A Fratelli Vita é vendida para a Brahma. Parte das operações é absorvida, e as linhas originais de refrigerantes acabam sendo descontinuadas. A fábrica encerra suas atividades.
- 2002 – A antiga Fábrica Fratelli Vita foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia.
- 2006 – O Centro Universitário Estácio da Bahia, iniciou o processo de aquisição do terreno e da fábrica. O prédio passou por cinco anos de reforma, restauração e adaptação para abrigar uma instituição de ensino. Abriu em 2017, funcionando como Campus Fratelli Vita, mas por problemas econômicos encerraram suas atividades em 2022.
- Anos 2020 – Iniciativas familiares resgatam o Guaraná Fratelli Vita, agora em produção artesanal e com novo nome, reacendendo o vínculo emocional com a marca histórica.
Tem informações e imagens sobre fábricas antigas de Salvador e de outros municípios da Bahia? Compartilhe com a gente: redacao@industrianews.com.br
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
Leia também: Sinais no radar: a semana em que a indústria baiana mudou de tom















