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Capa Atualidades

A cada 0,1°C a mais, desastres custam R$5,6 bilhões ao Brasil

Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra como a mudança do clima ameaça a competitividade da indústria e aponta caminhos para adaptação em setores como petróleo, alimentos e têxtil

INDÚSTRIA NEWS por INDÚSTRIA NEWS
12/07/2026
em Atualidades
Tempo de Leitura: 5 minutos
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indústria celulose

Mudança climática já virou risco bilionário para a indústria brasileira (Foto: CNI)

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Cada aumento de apenas 0,1°C na temperatura média global acrescenta R$ 5,6 bilhões aos prejuízos econômicos provocados por desastres naturais no Brasil. A estimativa, apresentada em um novo guia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), reforça que a mudança do clima deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a representar um fator de competitividade para a indústria brasileira.

Para Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, a adaptação climática precisa ser incorporada ao planejamento estratégico das empresas, especialmente diante do avanço dos eventos extremos e das novas exigências de uma economia de baixo carbono.

“Esta é uma iniciativa estratégica para fortalecer a resiliência da indústria brasileira diante dos impactos da mudança do clima e das exigências crescentes de uma economia de baixo carbono. O guia identifica riscos físicos, como secas, inundações, incêndios florestais e elevação do nível do mar, além de riscos de transição ligados a pressões regulatórias, mudanças tecnológicas e novos comportamentos do consumidor”, afirma Muniz.

Guia mostra como a indústria pode se adaptar

O avanço dos eventos extremos já aparece nas estatísticas nacionais. Entre 1991 e 2023, o Brasil registrou mais de 64 mil desastres no Brasil, segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Só entre 2020 e 2023, o país registrou acima de 16 mil ocorrências, uma média próxima de 4 mil registros por ano. As secas (50%) responderam por metade dos casos, enquanto inundações, enxurradas e enchentes representaram 27% e as tempestades, 19%.

Em razão desses riscos, o documento concentra recomendações em três subsetores com base na exposição geográfica e na dependência de recursos naturais:

Óleo e Gás

O setor de óleo e gás concentra ativos de alto valor em áreas costeiras e marítimas, como plataformas offshore, refinarias, dutos e terminais portuários. Segundo o guia, tempestades, ressacas e a elevação do nível do mar podem comprometer estruturas, interromper operações e elevar custos de manutenção, seguros e adaptação.

Entre as medidas recomendadas estão o reforço da infraestrutura, a atualização de critérios de engenharia para eventos extremos, o reúso e dessalinização de água nas operações marítimas e de refino e a diversificação dos investimentos em fontes renováveis, como a energia eólica offshore.

Alimentos

A cadeia de alimentos é uma das mais sensíveis à mudança do clima por depender diretamente do regime de chuvas, da disponibilidade de água, da temperatura e da estabilidade da produção agropecuária. Secas prolongadas, inundações, ondas de calor e geadas fora de época podem reduzir safras, encarecer insumos, comprometer o transporte de produtos perecíveis e afetar tanto o abastecimento interno quanto as exportações.

Entre as recomendações do guia estão o estímulo à agricultura regenerativa, à conservação do solo e da água e ao uso de tecnologias capazes de aumentar a previsibilidade da produção. Ferramentas de meteorologia de precisão e agricultura digital podem apoiar decisões sobre plantio, colheita, irrigação e logística, reduzindo perdas diante de eventos extremos.

O documento também aponta a necessidade de modernizar a infraestrutura de armazenagem e distribuição, com silos, armazéns e centros logísticos mais preparados para variações de temperatura e interrupções no transporte. Na pecuária, medidas como sombreamento, manejo do estresse térmico e garantia de acesso à água limpa ajudam a preservar a produtividade em um cenário climático mais instável.

Têxtil

No setor têxtil e de confecção, os riscos climáticos aparecem em diferentes etapas da cadeia produtiva. A produção de fibras naturais, como o algodão, depende de água e de condições climáticas favoráveis, enquanto as fases de beneficiamento, tingimento, lavagem e acabamento consomem volumes expressivos de recursos hídricos e energia. Em regiões sujeitas à escassez de água, eventos extremos podem elevar custos, comprometer o fornecimento de insumos e afetar a continuidade das operações industriais.

O guia recomenda a adoção de tecnologias de reúso de água e tratamento de efluentes, a modernização de máquinas para maior eficiência energética e o uso de fontes renováveis, como solar e biomassa, nos processos produtivos. A digitalização da produção também aparece como estratégia para monitorar, em tempo real, o uso de recursos e antecipar riscos operacionais.

Outra frente apontada é a economia circular. A reutilização de resíduos têxteis, a reciclagem de peças pós-consumo, a rastreabilidade de fibras e a certificação ambiental de fornecedores podem reduzir a dependência de novas matérias-primas e fortalecer a competitividade do setor diante de consumidores e mercados cada vez mais exigentes.

Agenda de regulação

Além de mapear as ameaças físicas às fábricas, o guia detalha os riscos de transição regulatória e comercial que reconfiguram o ambiente de negócios no país. O principal marco dessa mudança é a consolidação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/25.

A legislação estabelece limiares para a entrada de instalações produtivas no mercado regulado de carbono. Na prática, as indústrias que não cumprirem com as metas de descarbonização a serem estabelecidas pelo governo passarão a ter custos financeiros adicionais para comprar cotas de compensação, enquanto as empresas que atingirem suas obrigações de emissões poderão comercializar os créditos excedentes. O guia da CNI orienta o setor produtivo a antecipar o inventário de emissões de Gases de Efeito Estufa para que possam traçar estratégias de mitigação e adaptação e se antecipar a novas realidades regulatórias e de mercado.

Consumidor e cadeias globais

Paralelamente à regulação jurídica, o estudo aponta mudanças no comportamento dos consumidores e nas exigências das cadeias globais de suprimentos. A demanda por transparência ambiental ao longo do ciclo de vida dos produtos cresce entre compradores, investidores e mercados internacionais. Empresas que não conseguirem comprovar práticas sustentáveis podem perder participação de mercado (market share), enfrentar restrições no acesso a financiamento e encontrar barreiras comerciais em economias com regras ambientais mais rigorosas, como a União Europeia.

Na avaliação de Muniz, o guia funciona como um roteiro para transformar a adaptação climática em estratégia de resiliência e crescimento. “Mais do que um guia técnico, este plano é um instrumento de transformação, que posiciona a indústria brasileira como protagonista na agenda climática global, garantindo competitividade, segurança e sustentabilidade”, assegura o diretor da CNI.

A publicação também aponta oportunidades competitivas para o país, como o powershoring, conceito que associa a atração de investimentos industriais à ampla disponibilidade de energia limpa no Brasil. O documento incentiva ainda o uso de instrumentos financeiros verdes, como títulos vinculados a metas de sustentabilidade, para apoiar a modernização tecnológica do parque industrial nacional.


Leia também: Bahia lidera oferta de estágios do IEL e abre 811 oportunidades para estudantes

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Tags: alimentosCNIConfederação Nacional da Indústriadestaqueóleo e gástêxtil
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