
Quem passava pelo Polo Petroquímico de Camaçari entre as décadas de 80 e 90 guardava na memória o ritmo pulsante de uma gigante: a Nitrocarbono S.A. Fundada em 1973 e iniciada operacionalmente em 1978, a empresa foi fruto da visão estratégica do Grupo Mariani, em parceria com a Petroquisa. Para muitos trabalhadores da época, o “som” da Nitrocarbono era o da prosperidade; o “cheiro” era o do progresso químico que transformava o cenário de Camaçari e colocava a Bahia no mapa mundial da indústria de bens intermediários.
A unidade era a única produtora na América Latina de DMT (Dimetil Tereftalato), a matéria-prima essencial para a fabricação de fibras de poliéster e, posteriormente, das famosas garrafas PET. No seu auge, a Nitrocarbono não apenas gerava milhares de empregos diretos e indiretos, mas era o coração de uma cadeia que abastecia desde a indústria têxtil até o setor de embalagens. A empresa foi um dos pilares que sustentaram a arrecadação de ICMS do estado por décadas, consolidando o Polo como o maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul.
Um fato pitoresco que muitos lembram era o “orgulho técnico” de seus funcionários. Trabalhar na Nitrocarbono era um selo de excelência; a empresa era conhecida por investir pesado em tecnologia de ponta para a época. O impacto urbano foi visível: o crescimento de cidades como Camaçari e Dias d’Ávila está diretamente ligado ao fluxo de especialistas e operários que a empresa atraiu, criando bairros inteiros e movimentando o comércio local com salários acima da média regional.
Contudo, os desafios começaram a surgir nos anos 90 com a abertura de mercado e a obsolescência tecnológica do DMT frente ao avanço do PTA (Ácido Tereftálico Purificado), um concorrente mais eficiente para a produção de poliéster. A crise não foi apenas externa, de mercado; houve uma necessidade latente de escala global que as empresas isoladas não conseguiam mais sustentar. De acordo com o jornal Correio, esse cenário forçou uma profunda reestruturação no setor petroquímico brasileiro, exigindo fusões para manter a competitividade diante dos gigantes internacionais.
“Fechamento”
O “fechamento” das portas da Nitrocarbono, na verdade, não foi um abandono, mas uma absorção. Em 2002, ela foi uma das seis empresas (junto com Copene, OPP, Trikem, Proppet e Polialden) que se fundiram para formar a Braskem. Na prática, a marca Nitrocarbono deixou de existir, mas suas instalações continuaram operando sob a nova bandeira, integrando um modelo de gestão verticalizado que visava salvar o Polo da decadência que ameaçava o setor na época.
Hoje, as antigas instalações da Nitrocarbono permanecem como parte do gigantesco complexo da Braskem em Camaçari. Para os veteranos, fica a saudade do tempo em que o crachá laranja e branco da empresa era símbolo de uma Bahia que aprendia a dominar a química fina. O legado da Nitrocarbono vive em cada garrafa plástica ou peça de roupa de poliéster produzida no país, lembrando-nos de que a inovação industrial na Bahia tem raízes profundas e nomes que não podem ser esquecidos.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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