O salário mínimo no Brasil passou a R$1.621, conforme confirmação do Ministério do Planejamento e Orçamento. O reajuste de 6,79%, equivalente a R$103, incorpora a inflação medida pelo INPC acumulado de 12 meses (4,18%) e um ganho real limitado pela regra fiscal vigente. O valor anterior era de R$ 1.518.
No entanto, o impacto do novo piso vai além do aumento nominal. Segundo estimativa do Dieese, a elevação deve injetar R$81,7 bilhões na economia, afetando consumo, renda e arrecadação, mesmo sob um cenário de restrições fiscais mais rígidas. Ao mesmo tempo, empresas que dependem fortemente de mão de obra sentem o aumento imediato dos custos.
Entenda por que o reajuste foi possível, como a regra fiscal moldou o ganho real e o que empresários e profissionais devem fazer agora. O salário mínimo voltou a ser instrumento de estímulo econômico — mas a que preço para a competitividade?
POR QUE ISSO ESTÁ ACONTECENDO
Quatro fatores explicam o reajuste e seu desenho final:
1 – Inflação controlada pelo INPC
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulou 4,18% em 12 meses até novembro, servindo como piso legal do reajuste. Em novembro, o índice foi de 0,03%, sinalizando desaceleração inflacionária.
2 – Crescimento econômico confirmado
O IBGE revisou o PIB de 2024, confirmando expansão de 3,4%. Pela regra, parte desse crescimento entra no cálculo do salário mínimo com defasagem de dois anos.
3 – Limite do arcabouço fiscal
O novo regime fiscal impõe que o ganho real do salário mínimo fique entre 0,6% e 2,5%, mesmo que o PIB cresça mais. Isso evita pressões excessivas sobre gastos obrigatórios.
4 – Estratégia de estímulo com cautela
O governo busca estimular o consumo sem comprometer a sustentabilidade fiscal. O resultado é um aumento real moderado, porém relevante em escala macroeconômica.
O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICA
Para empresários
- Oportunidade: Mais dinheiro na base da pirâmide significa maior consumo popular. Setores como varejo, alimentação, transporte e serviços básicos tendem a sentir primeiro o impacto positivo. Se sua empresa atende classes C, D e E, prepare-se para aumento de demanda.
- Ameaça: A folha de pagamento sobe imediatamente. Empresas que pagam o mínimo ou próximo dele terão custos maiores. Além disso, benefícios atrelados ao salário (vale-transporte, vale-alimentação) também sobem proporcionalmente. Para pequenas empresas com margens apertadas, isso pode apertar ainda mais o caixa.
Ações recomendadas:
- Revise sua folha agora: Calcule o impacto real do reajuste considerando salários, encargos e benefícios. Antecipe o quanto sua despesa mensal aumentará.
- Ajuste precificação: Se sua margem for muito apertada, avalie reajustes de preços de forma estratégica, comunicando ao cliente o motivo (custos trabalhistas).
- Explore ganhos de eficiência: Automatize processos, renegocie contratos com fornecedores e busque produtividade para compensar o aumento de custos.
Para profissionais
- Boa notícia: Quem recebe o mínimo (ou até 1,5x o mínimo) terá ganho real de poder de compra. Isso significa que, descontada a inflação, o salário compra mais do que em 2025.
- Má notícia: O reajuste do mínimo não garante reajuste automático para quem ganha acima. Profissionais com salários entre R$ 2.000 e R$ 4.000 podem ver a distância para o piso diminuir, criando pressão salarial e insatisfação. Negociações coletivas serão tensas em 2026. Empresas podem conter contratações ou exigir maior produtividade.
Diferencial exigido:
- Produtividade mensurável (mostre números)
- Habilidades técnicas específicas (diferencie-se do piso)
- Certificações e cursos que justifiquem salário acima do mínimo
- Multicompetência (mais de uma função)
- Foco em eficiência e resultados
Ações recomendadas:
- Prepare sua negociação: Se seu salário está próximo ao mínimo, use o reajuste como base para pedir correção proporcional.
- Invista em qualificação: Quanto mais especializado, menor o risco de ter seu salário “achatado” pelo mínimo.
Para o setor econômico
Tendência 1: Pressão inflacionária localizada
Setores intensivos em mão de obra (construção civil, varejo, serviços) tendem a repassar custos. Isso pode gerar inflação de serviços nos próximos meses, especialmente em regiões com mercado de trabalho aquecido.
Tendência 2: Consumo popular em alta
R$ 81,7 bilhões na economia significa mais dinheiro circulando na base. Supermercados, farmácias, transporte público e e-commerce de baixo ticket devem se beneficiar. Atenção ao período março-maio, quando o efeito se consolida.
‘GANHO REAL EXISTE, MAS COM FREIO FISCAL’
Segundo nota técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), “a política de valorização do salário mínimo mantém impacto positivo sobre renda e consumo, mas passa a operar dentro de limites fiscais mais rígidos, reduzindo efeitos expansivos no médio prazo”.
O Dieese destaca que o efeito líquido depende da capacidade da economia de absorver custos maiores sem repassar preços ou reduzir emprego. A recomendação técnica é clara: políticas de produtividade e crédito direcionado são essenciais para que o reajuste gere crescimento sustentável, e não apenas pressão inflacionária.
O QUE OBSERVAR NOS PRÓXIMOS MESES
- Janeiro-Fevereiro: Empresas ajustam folhas de pagamento e revisam orçamentos. Observe se há demissões ou renegociações de contratos terceirizados – sinais de pressão financeira.
- Março-Abril: Primeiros sinais de aumento de consumo popular. Varejo e serviços devem reportar alta nas vendas. Fique atento aos dados do IBGE sobre vendas no varejo.
- Maio-Junho: Rodadas de negociações coletivas (dissídios). Se sindicatos conseguirem reajustes acima da inflação, haverá segunda onda de pressão sobre folhas de pagamento.
Indicador a acompanhar: Inflação de serviços (IPCA-Serviços). Se subir acima de 5% no primeiro semestre, significa que empresas estão repassando custos trabalhistas. Se ficar abaixo de 4%, o impacto foi absorvido sem pressão inflacionária.
Indicador-chave:
- Emprego formal (Caged): se desacelerar, indica pressão de custos; se mantiver ritmo, o reajuste foi absorvido.
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